Entrou na empresa aquela manhã como geralmente fazia. Bem humorado, em paz com a vida, com um bom dia para cada um, como se pessoa por pessoa, todos merecessem sua atenção. Estava feliz também porque havia recebido garantias de que, mesmo com a mudança na empresa, seu cargo estava garantido. Afinal, eram quase 20 anos de serviços prestados. Edgar era um funcionário exemplar. Além de uma excelente rede de relacionamentos, conhecia do negócio. Sabia o que o mercado queria e sempre se atualizava.
Entrou em sua sala, deixou o paletó na cadeira, sentou-se para degustar o café sagrado de cada dia. Dona Rosa tinha caprichado ainda mais no pretinho. Estava quente, saboroso e chegou na hora certa. Depois de uma rápida passada pelos sites e mensagens, seu telefone tocou. Foi chamado para uma reunião com alguns colegas e superiores.
Botou o paletó de novo e seguiu para o andar de cima. Uma reunião a mais, outra a menos. Essa vinha sendo sua vida. Estranhou apenas que ninguém havia lhe falado nada sobre a presença de alguns dos diretores vindos da matriz. Geralmente ele era um dos primeiros a ficar sabendo.
Na sala, seis caras conhecidas e um jovem executivo que ele nunca tinha visto. O sétimo elemento nem lhe deu muita bola. O ambiente estava sombrio. Um dos seus melhores amigos, Paulo Henrique, foi quem puxou a conversa. Edgar, é o seguinte. Vou direto ao ponto, porque também to sofrendo muito com essa surpresa. Esse rapaz aqui, Augusto, vai ocupar teu cargo a partir de hoje. A empresa vem passando por mudanças, sei que tinha te dado outra informação, mas decidiram colocar alguém mais jovem para trabalhar em suas funções.
Demorou um minuto, ou dois, mas um tempo que parecia do tamanho de um dia inteiro, com madrugada e tudo, para Edgar começar a balbuciar alguma coisa. Assimilar o golpe talvez fosse impossível. As primeiras palavras mal saíram. As lágrimas jorraram com um pouco mais de facilidade. Ele não acreditava que estava sendo mandado embora daquele jeito, e a frase sobre a idade pegou como um soco na boca do estômago. Ficou enjoado! A sala parecia diminuir de tamanho e os rostos aparentemente sentidos, perderam o sentido. O filme que passou em sua cabeça, misturava passado, família, noites em claro, projetos, viagens, sonhos. Cabeça que estava com mais cabelos brancos do que a maioria, é verdade. Mas Edgar era um poço de juventude. Ao menos era nisso que acreditava...
Os dias que se seguiram foram os piores de sua vida. Janaína, a esposa, me contou que ele ficou dentro de casa por mais de uma semana. Sem sair nem para o quintal. A dor da demissão era prima da dor das palavras mal proferidas. Se dissessem algo mais pesado, ou acusassem de incompetência, talvez não tivesse doído tanto quanto ser substituído por um jovem com cara de colegial. Seu choro impediu que continuasse a falar. Peguei o endereço da clínica de recuperação para dependentes do álcool com um dos filhos. Começava ali minha jornada para tentar salvar o que restou do Edgar...
quinta-feira, 28 de julho de 2011
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Entre miados e ronronados
Além de quatro humanos, temos em casa três gatos. O Maurice, o Zoboo Mafú e a Sophie. Assim mesmo, com ph, para dar charme. E charme ela tem de sobra. É uma gatinha persa, cinza, com uma beleza de parar o gatil. Sonho de consumo da esposa, realizado graças a amigos que nos deram de presente. Os dois machos são o exemplo do felino sossegado. Maurice, carinhosamente chamado de Teteco, é persa também. Branco, com extremidades amarelas, volta e meia fica mais para o bege. A cor indica que, como ele não é um camaleão, está na hora de mais um banho. Se quiser continuar dormindo na cama...
Já Zoboo é o exemplo maior de fidelidade e gratidão animal. Ele foi encontrado por minha filha mais velha, adotado, recebido com honras de herói de guerra. Como forma de expressar seu carinho segue a salvadora por toda a casa, o tempo todo. Com o perdão da comparação, fanáticos que me perdoem, o gato parece um cachorro. Daqueles de cinema, que esperam o dono, vivem pelo dono, morrem por ele. Nosso Zoboo tem outra característica: é gordo, muiiito gordo! Uma barriga desproporcional, que causa algumas dificuldades. Sentar, ou tomar um banho de gato é tarefa de reality show para ele.
Com os três completamos nossa felicidade. Claro que temos as mesmas manias de qualquer dono apaixonado. Falamos com eles, sentimos falta quando estamos longe, e sofremos quando um dá uma escapada. Aquela fugida leva todos da casa para uma perseguição pelo condomínio. Casas de vizinhos, embaixo dos carros, folhagens, tudo minuciosamente filtrado. Ainda bem que tem sido fácil reencontrar a turminha. Nenhum se especializou em esconde-esconde.
As tarefas se dividem por segmento e gênero. Mãe e filhas dão o banho. A filha mais nova trabalha mais nesse setor; virou especialista. Eu escovo e tiro os pelinhos embolados. Alimentação é tarefa de todos. Potinho sem água e sem comida, precisa de reabastecimento. Com filhas no território preguiçoso da adolescência, é preciso de vez em quando relembrar que animal de estimação não é um tamagochi. São seres vivos que necessitam de cuidados diários e constantes.
O problema de tanto xodó é conseguir impor limites. Os dois persas praticamente não miam. Mas tem seu jeito peculiar de pedir para entrar e sair do quarto ou ganhar um cafuné extra. Já o Gordo mia. Mia alto, se for preciso. Especialmente quando se sente só. Mas no fundo, no fundo, nenhuma exigência deles é pesada para ninguém. Pode se dizer que praticamente nos consideram membros da família...
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Tá rindo de quê?
De repente, quando acordei, tinha uma bola na ponta do meu nariz. Vermelha, igual a de um palhaço. Fui ao espelho, olhei, esfreguei os olhos, vi que não era sonho. Tinha mesmo uma bola ali. E não saia. Cocei, peguei, apalpei, pensei em tentar arrancar, mas nada. Ela continuava firme. Só faltava a maquiagem e o circo. Liguei para um médico amigo e falei a respeito do corpo estranho que agora fazia parte do meu corpo. Ele riu, achou que era brincadeira, depois viu que eu não estava em condições de fazer palhaçada. Só estava com cara de palhaço. Duro foi achar um disfarce para sair, chegar ao consultório sem ser notado. Impossível, claro! Assim que apareci na garagem do prédio o Gabriel, filho do Nonato gritou pra todo mundo ouvir: Olha lá, olha lá, o nariz de palhaço...Vermelho de raiva e vermelho na ponta das narinas, sai bufando. O que, nesse caso, deixava minha situação ainda mais ridícula.
Quando cheguei ao consultório, vergonha das vergonhas. Meu médico precisou sair. Falei para a recepcionista que era um caso grave. Ela riu! Do que falei ou da minha cara? Nunca saberei, mas comecei a pensar em entrar para os doutores da alegria. Nariz eu já tinha...Esperei num canto, longe de todos. Óbvio que o comentário na recepção não poderia ser outro. Era eu o alvo das risadinhas, piadinhas e ti-ti-ti. O bobo da corte...
Quando o Orlando chegou, veio com a piada pronta: Meu grande amigo, disse ele, agora sim posso voltar para meu empreendimento. Orlando Orfei volta à estrada em grande estilo. Que merda! Meu médico tinha que ter nome de dono de circo. E ainda era um péssimo piadista.Aguentei as brincadeiras de praxe no consultório e o exame começou. Veio uma junta médica. Eu era o objeto de estudo mais estranho que havia aparecido ali em anos. Uma bactéria, um fungo, uma alergia, um câncer, uma espinha gigante, um implante extraterrestre... tudo quanto é teoria pintou entre análises mais sérias e gaiatices. O formato do nariz pedia isso! Fui examinado a fundo, filmado, fotografado, debatido. A conferência on line daquele dia girou em torno disso. Até mesmo uma possível nova doença foi ventilada: algo como Narinas de Arlequim, pra não dizer palhaço, de cara.
Infelizmente precisei operar. E com um dos maiores nomes da cirurgia plástica do país. A bola não sairia sem essa intervenção. Pedi para ficar internado. Não iria embora com o nariz assim nem se fosse chamado pelo Cirque De Soleil. Ainda bem que tudo correu bem. Em poucos dias eu já estava de volta à rotina. Até aprendi a rir dessa história. E a conviver com o apelido que me deram: Arrelia. E dos convites que ainda recebo para alegras festas de criança. Para os mais íntimos respondo com uma piada pronta também: Só se tua mãe for a mulher barbada...
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Viva o pânico
Depois de muita economia, um aperto aqui, outro ali, a família comemorava a instalação da antena com sinal de TV fechada. O pacote prometia um show de canais. Esporte, filmes, seriados, desenhos, moda, notícias, com apenas um toque no controle remoto. O pai, seu Genésio, não via a hora de mostrar pra filharada o canal que reprisava novelas e programas que um dia foram líderes de audiência. Tinha lido em algum lugar que aquela emissora já era a mais assistida em alguns horários. Também, dizia ele, não era pra menos, naquele tempo é que se faziam programas de verdade. Como se o “naquele tempo” fizesse tanto tempo assim.
O canal, naquela noite, exibiria a Escolinha do Professor Raimundo, o Viva o Gordo e algumas novelas. Por mais que a molecada insistisse em dar uma olhada nas séries com vampiros e canais de música, de preferência algum com a Lady Gaga, seu Genésio permanecia irredutível. Nem mesmo a bondade abnegada de dona Maria Francisca seria capaz de ajudar a turminha. Todos teriam que conhecer o que o pai e a mãe um dia curtiram. No máximo uma navegada no intervalo estaria permitida.
Eram sete na sala: o casal e cinco filhos. O mais velho com 19 e a mais novinha com 11. A impaciência era compatível com a ordem de idade. Os mais moços até curtiram um bocadinho mais os quadros e brincadeiras. A curiosidade para ver como as coisas eram, ajudou a segurar a onda por um tempo. Principalmente com o delicioso humor da Escolinha. Na hora do Gordo, com Jô Soares em grande estilo, a insatisfação começou a azedar o clima na sala. Enquanto Genésio e Maria riam escancarados, o resto da plateia se esforçava para entender piadas com o Plano Cruzado, a Sunab, os fiscais do Sarney, Tele Santana...
A de 11 e o de 13, Maria Carla e Reinaldo Henrique, dormiram no primeiro bloco. Não chegariam até a novela e talvez nem se interessassem por saber quem matou Odete Roitmann de novo. Os demais aguentaram firmes. Mas um dos intervalos forçou uma reunião de família em caráter de emergência. Paulo Eduardo, Maycon Felipe e Elaine Taiane queriam seu espaço reservado também. Afinal, domingo tinha o Pânico e segunda o CQC, sem contar as series da Sony e Warner, assuntos obrigatórios na escola e no trabalho.
Ficou estabelecido que haveria horários conforme a faixa etária. Seria preciso também outro aperto no orçamento para comprar uma 14 polegadas pro quarto do casal. E assim foi feito: enquanto Genésio e Maria riam ou choravam com suas lembranças, a filharada se revezava entre sangue, rock, suspense e uma ou outra dose de National Geografic. O canal adulto era assunto para outra reunião. Sem elas!
O canal, naquela noite, exibiria a Escolinha do Professor Raimundo, o Viva o Gordo e algumas novelas. Por mais que a molecada insistisse em dar uma olhada nas séries com vampiros e canais de música, de preferência algum com a Lady Gaga, seu Genésio permanecia irredutível. Nem mesmo a bondade abnegada de dona Maria Francisca seria capaz de ajudar a turminha. Todos teriam que conhecer o que o pai e a mãe um dia curtiram. No máximo uma navegada no intervalo estaria permitida.
Eram sete na sala: o casal e cinco filhos. O mais velho com 19 e a mais novinha com 11. A impaciência era compatível com a ordem de idade. Os mais moços até curtiram um bocadinho mais os quadros e brincadeiras. A curiosidade para ver como as coisas eram, ajudou a segurar a onda por um tempo. Principalmente com o delicioso humor da Escolinha. Na hora do Gordo, com Jô Soares em grande estilo, a insatisfação começou a azedar o clima na sala. Enquanto Genésio e Maria riam escancarados, o resto da plateia se esforçava para entender piadas com o Plano Cruzado, a Sunab, os fiscais do Sarney, Tele Santana...
A de 11 e o de 13, Maria Carla e Reinaldo Henrique, dormiram no primeiro bloco. Não chegariam até a novela e talvez nem se interessassem por saber quem matou Odete Roitmann de novo. Os demais aguentaram firmes. Mas um dos intervalos forçou uma reunião de família em caráter de emergência. Paulo Eduardo, Maycon Felipe e Elaine Taiane queriam seu espaço reservado também. Afinal, domingo tinha o Pânico e segunda o CQC, sem contar as series da Sony e Warner, assuntos obrigatórios na escola e no trabalho.
Ficou estabelecido que haveria horários conforme a faixa etária. Seria preciso também outro aperto no orçamento para comprar uma 14 polegadas pro quarto do casal. E assim foi feito: enquanto Genésio e Maria riam ou choravam com suas lembranças, a filharada se revezava entre sangue, rock, suspense e uma ou outra dose de National Geografic. O canal adulto era assunto para outra reunião. Sem elas!
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Calçada da fama
Adamastor se vangloriava. Dizia ser o maior vendedor de filmes piratas da cidade. Um verdadeiro Barba Ruiva, ou Negra. Mais ainda: um Jack Sparrow das calçadas entulhadas de artigos copiados, filmes clandestinos, brinquedos sem data de validade e eletrônicos de pouca duração. Uma produção nem bem havia sido lançada em algum tapete vermelho e ele já tinha o material. Com e sem legenda. Capa dura, artigo quase de luxo. Um show, por apenas 10 reais. Isso mesmo! Cobrava mais caro que a maioria na praça. Tinha um nome a zelar. Seus produtos não eram qualquer artigo de segunda, ou terceira. Eram coisa de primeira. Se é que um filme desses pode ser chamado assim.
Adamastor tinha uma família grande. Dizia isso sempre. Até mesmo quando uma blitz baixava na região. Era assim que se defendia. Ia até na imprensa. Eu tenho mulher e cinco filhos. Preciso trabalhar. Não sei fazer outra coisa. Querem que eu vire um criminoso? Em algumas das idas até a delegacia, o Juninho ia junto. Seu filho mais velho trabalhava com ele desde os tempos do VHS. Adamastor e Adamastor Júnior começaram cedo na pirataria da sétima arte. Comércio que ele garbosamente batizou de Cinema Alternativo.
Certo dia Juninho chegou para o pai e disse que ia fazer faculdade. Iria estudar pra valer. Não mais fazer o contraturno escolar que exercia há anos. De manhã no colégio, à tarde na calçada da pirataria. Seu desejo era ir embora. Queria cursar Cinema. E não houve argumento que desse jeito. Adamastor estava perdendo seu gerente de vendas para o ensino superior. E que curso o gajo resolveu fazer!! Puxou um filho mais novo para a função e liberou o rapaz. Mas ele teria que se virar sozinho. Não dava para patrocinar o sonho. Romperam. Adamastor ficou sem falar com Juninho durante anos...
Mal imaginava que o futuro lhe pregaria uma grande peça. E foi num dia em que novas mercadorias chegaram. O lote de filmes trazia estampado o maior sucesso do cinema nacional naquele ano. O trabalho de um jovem diretor que contava a história de um rapaz que trabalhou a vida inteira com o pai, vendendo filme pirata nas calçadas. O nome do filme? Cinema Alternativo.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Isso não é nada!
Tem gente que gosta de contar vantagem sobre as doenças que já teve, os acidentes que sofreu, seus próprios dramas e casos. Na rodinha de amigos é só você falar de uma gripe que lá vem eles com no mínimo uma pneumonia. O Braguinha é assim: basta começar uma conversa sobre alguma enfermidade para ligar o alerta dos males que um dia ele sofreu, ou inventa que sofreu.
Dia desses, no intervalo de um jogo pela TV, falei de um problema no dedão do pé, que nunca mais foi o mesmo depois de uma partida de futebol na adolescência. Pra quê!! O Braguinha logo lascou sua frase predileta: Isso não é nada! Você precisava ver como ficou meu pé inteiro, depois de uma solada que levei no Varzeano de 1985. Lembra? Patrocinado pela Antarctica? Pois é! Inchou tanto, tanto, que nem deu pra colocar o gesso.
Semana seguinte, um churrasquinho na casa do Dadá, e novamente a turma toda estava reunida. Alguém falou em jogar bola no calor e como isso era perigoso. Tentaram até contar uma ou outra passagem sobre pele queimada, ou algo assim, mas o Braguinha acordou inspirado naquele domingo. Isso não é nada! Vocês tinham que ver como eu fiquei quando tinha 9 anos. Estava jogando na frente de casa, um futebolzinho daqueles que a gente coloca os tijolos pra fazer de gol, e devia estar uns 40 graus. E eu descalço. De repente comecei a sentir uma coisa mole embaixo dos pés. Quando dei por mim a coisa tinha desandado toda. A sola estava quase solta. Minha mãe gritou por meu pai que correu me levar pra farmácia do Tião Novalgina. De lá para o hospital e pronto. Tiveram que tirar a sola inteira. Fiquei uns 3 meses indo pra escola carregado. A história do Braga era novamente imbatível.
Depois de um silêncio quase sepulcral, uma voz surgiu saindo de perto da churrasqueira. E justamente do Agenor, que quase nunca falava nada. Como quem escondia um segredo há tempos, ele contou a história de quando levou um choque, ficou morto por mais de 15 minutos, foi ressuscitado pelo socorro médico e tem as marcas da descarga elétrica pelo corpo até hoje. Tirou a camisa, a calça, ficou só de calção de banho e exibiu umas marcas pretas que a gente nunca tinha visto. E ainda falou da experiência de ver uma luz branca, sentir uma paz incrível lá do outro lado e até conversar com alguém que lhe disse que ainda não era sua hora. Quando Braguinha tentou abrir a boca para dizer que isso não era nada, olhou pros lados, viu que havia descoberto uma história de outro mundo. Como por lá ele ainda não tinha ido, experimentou sua primeira grande derrota. Viva o Agenor!!!
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Olhos de felicidade
Abri a internet e vi uma foto da Madre Teresa. Faz tempo que tenho nela uma referência. Li a história do fotógrafo que pedia insistentemente para registrar o olhar da Madre. Queria porque queria aproximar sua câmera do rosto dela. Ao ser perguntado sobre a razão daquilo, ele disse que era porque aqueles olhos eram os mais felizes que já tinha visto. Madre Teresa respondeu dizendo que isso acontecia em função das muitas lágrimas que ela já havia enxugado.
Cada vez que leio algo a seu respeito, enxergo melhor que tipo de fé e serviço fizeram daquela mulher alguém tão especial. Ela acreditava em Deus através da humanidade. Não havia filtro para seu amor. Quando decidiu deixar a clausura para tocar nas pessoas, curá-las, Madre Teresa rompeu regras e paradigmas...Começou um trabalho vivo. Queria uma igreja que praticasse, não apenas mandasse fazer.
Escrevo a crônica de hoje logo após noticiar em meu programa de TV um novo assalto praticado em Porto Velho. Perto do meio-dia, seis homens armados renderam uma família e os funcionários da empresa que funcionava no mesmo prédio de sua casa. Horas de terror seguidas de horas de frustração. Sem amparo, sem socorro, nem mesmo o da polícia.
Claro que seria pedir demais para a igreja de hoje que socorresse tantos e tantos que estão sofrendo, vítimas da criminalidade. Ou vítimas da falência da saúde pública; reféns da armadilha que o mundo armou para si mesmo, em quase todos os setores.
Sei que não deveria despertar a alma de Madre Teresa para lamentar o desamor.Mas também sei que precisamos de referências históricas para não nos perdermos nessa história toda.
Me vi na pele daquele fotógrafo à procura de um olhar feliz. Sem uma máquina na mão e o lenço na outra, resolvi usar os dedos para dizer que ainda acredito; mais do que ontem! E que transformei o espaço de crônica domingueira de hoje em editoral por absoluta necessidade de desabafo. Acho que você já se sentiu assim também, certo? Indignado, sem armas, com somente um bocadinho de fé...
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