quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Mudar, é preciso?

Você já  chegou a jurar que nunca mais faria uma mudança de casa? Olhar desconsolado para aquela imensidão de caixas de papelão que precisava encher   e depois esvaziar? Deu com o martelo no dedo tentando ajeitar aquele prego numa cama velha que não queria mais ser dormida? Ou levou um choque na hora de provar que de louco e eletricista todo mundo tem um pouco?De quantas mudanças você já participou? Como protagonista e como convocado. Porque não dá para dizer convidado. Chamar alguém para ajudar na mudança não é convite, é provocação.
Viu como as mudanças se parecem? E como cansam? Pois então. Esta semana eu me mudei. Vivi mais uma vez a experiência de encaixotar, tirar da parede, passar fita crepe, fazer a limpeza, abrir mão de um monte de coisas que não lembrava que eram velhas porque simplesmente não me lembrava delas. O desgaste e o cansaço de horas e horas de ajeita aqui e ali, com a frenética colaboração de toda a equipe em família, para depois chegar ao paraíso da casa nova. Que para ter cara de casa nova precisa dos móveis montados, os armários pregados, os eletrodomésticos instalados, a água saindo das torneiras e as tomadas com energia...
Mudança não é qualquer experiência. Requer todo um aparato. Uma engenharia. Até mesmo uma certa  abnegação. Como ter que deixar para trás um rádio que um dia chegou a sintonizar oito faixas. Coitadinho! Hoje não pega nem se a emissora estiver ao lado de casa. Ou abrir mão de discos antigos. Discos mesmo, elepês... Daqueles pretos com um buraco no meio, como dizia a turma do Casseta. Como minha vitrola já foi em outra mudança, lá se foram também a Miúcha e umas antigas gravações de Fé e Inspiração. E as chaves? Meu Deus! Como é possível a gente guardar tanta chave assim? Toco de velas, parafusos, revistas antigas. Hoje ninguém mais recorta foto pra trabalho de escola, certo? Pra que tanta revista?
Bem, com as bênçãos da Santa Caixa Ecumênica decidi que é hora de um ponto final nas mudanças. E um ponto final aqui também, antes que eu mude de assunto...


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Café com pão

Abri os olhos, despertado pelo cheiro. Um aroma delicioso invadiu meu quarto, como se estivesse me chamando com voz de mulher. E era uma voz conhecida, que eu não escutava há muito tempo. Vinha da cozinha. Era dona Josefa, minha avó, mãe de minha mãe. “Chama us minino... o café ta pronto e o pão eu preparei ainda agorinha. Essas criança precisa acorda cedo sô... sinão vão fica tudo priguiçoso. Cadê o Junin (eu). Ele num disse que tava morrendo de saudade desse meu café?”.
Apareci voando na cozinha. Cara amassada, de ontem. Parecia que eu tinha dormido na gaveta de toalhas, observou a dona Zéfa. Acha que eu liguei? Queria era o pão caseiro com manteiga aviação, e  a mais deliciosa xícara de café de todo o mundo. E que cheiro aquele, o do café da vó moído e servido no mesmo dia.  Se meu nariz falasse, ia dizer que é melhor quer todos os perfumes que já passaram por ele.
Enquanto eu comia, ou melhor, devorava, notei que a luz era de um dia mais intenso  que o normal. A movimentação na casa era lenta e suave, como uma melodia que chora,  mas sem voz e sem lamento. Fixei melhor os olhos, num intervalo entre fatias e goladas. Eu estava fora de onde moro agora. Não estava aqui. Estava onde?
Lá fora, pela porta da varanda, vozes se misturavam ao som de charretes e carroças. A simplicidade, a mistura de sensações,  me fizeram ver que eu estava na casa das férias da minha infância. Era eu e também o menino que ali passava os melhores dos seus dias. Queria correr lá pra fora, e ver se era mesmo meu pai que puxava conversa com o tio Onofre. Se o outro era meu avô Rosário, teimando em dizer que bom mesmo era o barco que ele tinha feito pro cumpádi Zeca. “Aquilo sim era bote bom. Igual aquele nem fazendo outros dez”. Além de fabricar barcos artesanalmente, esse meu avô, o marido da dona Zéfa, era um exímio produtor de arreios e produtos para montaria. Um artista.
Mas eu não consegui sair da cadeira. Ouvia os causos e as risadas, acelerava meu coração numa vontade louca de levantar e beijar cada um deles. Mas o café não esfriava, o pão não acabava, o tempo não passava. Quando tentei falar com eles,  meus olhos se abriram de verdade. O quarto ainda estava escuro. Não havia café, nem mais aquela parte do meu passado favorito.
Levantei enxugando uma lagrimazinha teimosa que insistia em não acordar. Depois de conferir casa, família, gatos e a água da torneira. Agradeci. Não só por estar vivo, mas por ainda estarem vivos em mim, os  que amei e me amaram tanto.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O dia em que a segunda parou

Ela entrou enfurecida aquela manhã, na sede do Ministério Celestial dos Dias e Semanas, o MCDS. Soube que o Chefe estava lá e queria falar com ele: Não aguento mais tanta discriminação, reclamou, horas depois de esperar na fila. Ser segunda-feira é péssimo. Todos os dias da semana  tem seu status, seu glamour... A sexta-feira tem até música. Já ouviu alguém cantar “hoje é segundaaaaa-feiraaaaaa”? Então, veja como me sinto. Sábado é dia da feijoada no Brasil e é sagrado pra muita gente. E o domingo também diz que é santo, santarrão... detesto hipocrisia, reclamava com amargura e cara de segunda-feira mesmo. Sobre a terça e a  quinta afirmo que as  duas ficam com  aquele ar de neutralidade, pra ninguém notar  que não passam de dois diazinhos sem-graça. A quarta sim, eu respeito: futebol...namoro... cinema  mais barato, enfim, tiro o chapéu pra ela.
O Chefe olhava para a segunda e disfarçava uma leve conferida no relógio. É que São Pedro aguardava na sala ao lado porque também estava em crise. Sentia-se  culpado e não aguentava mais as reclamações vindas do São Paulo.  Pô Pedrão, manéra lá com a minha cidade. É muita água! Para de dizer que a culpa não é da água, mas do piso que não deixa a chuva ir pra lugar algum... Como os dois  já não se entendiam muito quando estavam aqui, era hora de gerenciar a crise.
Só que  a segunda continuava  lá, azucrinando e querendo mudar de dia. Como se isso fosse possível. Chefe, voltava  ela à carga, o Garfield ganha a vida comendo lasanha e falando mal de mim. Aliás, todo mundo fala mal de mim. É só tocar a música do Fantástico que já começam a me xingar. Sou o dia seguinte ao descanso. Sou aquela que ninguém queria que chegasse. Imagina como ando me sentindo. Até pensei  em fazer um blog, mas não sei se to preparada pra interagir. Imagina o que vão me falar  se eu for para as redes sociais...
O que eu faço? Em alguns idiomas não passo de segundo dia. Grande coisa! Em outros  sou o dia da lua, piorou. Todo mundo quer saber do sol, do domingão, da praia. Estou fadada ao descaso. Me ajude,  pelo amor de Você Mesmo! Preciso me reencontrar.
Lembrando que Ele também não descansava há muito tempo, o Chefe  estava pronto para mandar a segunda achar o que fazer quando entra Gabriel, avisando que havia um tumulto em função de um boato de que um ex-presidente de um país da América do Sul pensava em ser canonizado vivo. Era a deixa ideal para empurrar a questão para outro dia.  Me desculpe,  querida, vou ver o que posso fazer por você. Não fale pra ninguém que conversamos sobre isso. E, volte na próxima segunda, ou melhor, venha na terça,  às segundas geralmente não me sinto muito bem...

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Brothers


Um programa de TV e capaz de nos pegar de surpresa. Foi o que aconteceu comigo, quando via a ESPN Brasil numa segunda-feira, à noite. Num raro momento de sossego. Na tela, ao volante de uma Mercedez, um ex-atleta falando inglês com sotaque carregado das Balcãs, me fez deixar o controle remoto de lado. Era Vlad Divac, um dos maiores jogadores de basquete da Europa em todos os tempos. Ele narrava um documentário chamado Brothers. Uma produção em que o esporte é pano de fundo para dramas históricos recentes e os traumas que marcaram a guerra que esfacelou a Iugoslávia.


E era por essa seleção que Divac jogava. Ele, Drazen Petrovic e um elenco que encantou o mundo. No final dos anos 80 e início da década de 90 um time quase imbatível. Sua derrota maior aconteceu fora das quadras. Quando a Croácia viu o muro de Berlim cair e voltou a sonhar com sua independência. Ali começava a rachar o país e sua poderosa seleção de basquete. A história, contada com idas e vindas pelo tempo, é emocionante do começo ao fim. Tem hora que parece um filme de ficção, baseado em roteiro original e com produção cara. Mas a vida real, às vezes precisa ser contada com cara de vida real mesmo. É dessa forma que descobrimos como uma atitude pode abalar uma nação e acabar com sólidas amizades.
Foi assim quando a Iugoslávia venceu uma competição e um torcedor  entrou na quadra com uma bandeira croata em busca da separação. Divac ficou furioso. Não queria separar seu país, porque não desejava ver sua equipe desmanchada. Ali estavam seus amigos. Ali estava sua identidade. Por isso  pegou a bandeira e jogou no chão. Sua atitude não só despertou o ódio na Croácia como o afastou dos companheiros de time. Petrovic, um dos maiores cestinhas que o mundo já viu, era um deles.

O documentário mostra como os dois eram unidos, especialmente quando foram juntos para o draft da NBA. Um sonho realizado! Vlad Divac no Lakers e Petrovic no Portland. E mostra também a busca do sérvio para reconquistar a amizade do croata. O que nunca foi possível acontecer. Já que Petrovic morreu num acidente de carro em 1993.

Em Brothers, os produtores mostram Divac retornando à Croácia para encontrar a família de Drazen, quase 20 anos depois. Não esconde como os moradores de Zagreb falavam dele pelas costas, quando passava nas calçadas da capital ainda marcada pelas bombas. Um dia ele foi ídolo lá. Hoje ainda é visto como um traidor, um inimigo. Poucas vezes vi um trabalho com tamanha qualidade. Jornalismo, cinema, televisão, esporte, vida, amizade e força. Vlad Divac, com seus 2 metros e 13 de altura mostrou ser mesmo um grande sujeito. Principalmente  quando acreditou ser  possível não mudar o mundo.