segunda-feira, 20 de março de 2023
Minutinho não existe
segunda-feira, 13 de março de 2023
A Mongólia é logo ali
Foi bem cedo, lá quando ainda me chamavam de Juninho, que aprendi a contar até 10. Uma façanha, dependendo da idade e do tamanho. Familiaridade com os números, as letras, as palavras. Migrar do papai e mamãe para falar paralelepípedo, helicóptero, saber quanto é 7 x 7, ou 46 x 27. A tabela periódica, onde fica a Mongólia, o denominador comum, o planeta Urano...
Aprender é parte de existir.
Sempre o ambiente nos oferece a oportunidade de saber mais. E desde sempre as
cobranças pelas respostas fazem da vida uma nova segunda-feira a cada dia. Não
tem como fugir, a não ser que optemos pela caverna da mediocridade e a estagnação.
Uma aposentadoria ainda com energia.
Fora isso, com 40 ou mais
a estudante pode sim cursar sua graduação em Biomedicina, embora as colegas
mais jovens acreditem que ela não sabe o que é o Google.
Na verdade, saber quem
ele é trata-se da maior facilidade presente no presente. O que elas não entendem,
ou não querem aprender, é que a maturidade nos ensina mais do que o robozinho
por trás de quase tudo.
Contar até mil, talvez
seja a maior das vitórias de quem não desiste.
Respirar, esperar, compreender,
perdoar, recomeçar, escutar, insistir (não teimar), resistir, acreditar e ainda
sorrir, mesmo que em meio a dor e lágrimas, são lições que lá na fase do contar
até 10 era impossível ensinar pra gente. Até porque, quem lidava conosco lidava
com isso também, só não conseguia passar direito pra frente. Era preciso chegar
nossa hora de aprender a ferro e fogo.
Hora de mais um ponto
final. O de hoje, é claro. Afinal, mais do que saber onde é a Mongólia, é preciso
saber onde estamos.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2023
Manda um zap
Você acredita no whatsapp?
Como uma maneira de realmente se comunicar? Pergunto isso após ler a trágica história
da criança que caiu do segundo andar de um prédio e morreu, enquanto sua mãe
estava num passeio de barco. Longe de querer julgar quem quer que seja, cada um
tem direito de fazer seus passeios e momentos de lazer, me refiro ao episódio
para dar ênfase a outra forma de enxergar o caso. Aquela que tem levado muita
gente a acreditar que mandar uma mensagem basta.
Nessa história, a mãe avisou o pai, que passaria pra pegar as crianças, também mandou texto para o sobrinho, que ficaria com elas, e parece que ainda avisou outros parentes, que teriam um tempo do dia com dois dos seus três filhos. Mas a tragédia escreve errado por linhas tortas. Ao se cercar de zapeadas maternais, ela deixou de fazer algo que fazíamos até esses dias, que era conversar um com o outro. Quando não dava pra ser pessoalmente uma ligação ajudava a esclarecer muita coisa. Ficava claro, pois afinal era uma conversa. Ah, mas mandar mensagem também é... Discordo antes mesmo de chegar na segunda página!
Distante de qualquer
refração à tecnologia, que é uma dádiva quando bem usada, penso que talvez precisemos
repensar. E responder também. O que de fato funciona quando vai pro grupo? As
mensagens são suficientes para esse assunto, ou ele merece um telefonema? (fazia
tempo que não escrevia a palavra telefonema). Será que não é o caso de uma
conversa pessoal? No grupo acima citado, ou com as pessoas mais próximas? Ou a
pessoa?
Sabe, talvez tenhamos nos
espreguiçando no teclado. O touch e suas facilidades, as conexões e suas
acelerações, a mobilidade e a praticidade tem deixado o mundo rápido e ao mesmo
tempo sonolento. São duas redes: a conexão na net e a rede entre ganchos na
parede. Um descanso perigoso às vezes, quando acreditamos, como essa mãe que
agora chora, que uma ou duas frases, ou um áudio, comunicam de fato.
Lamento mesmo a dor da
família e a aquela que me leva a refletir sobre. E a responder minha própria pergunta
do primeiro parágrafo. Sim, eu acredito no whatsapp. Mas não como um ser onisciente,
onipresente e onipotente.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2023
No balanço das horas
Acordei mais cedo hoje, acabei chegando adiantado ao trabalho. Quando saí do carro e percebi que meus passos estavam acelerados a caminho da porta de acesso, lembrei de uma mensagem que citava um ditado rabínico que diz que ‘a alma anda na velocidade de uma camelo’. Descompassei no mesmo instante. Esperei um pouco, respirei e segui mais devagar para a benção que é poder trabalhar. Não precisava da pressa. Geralmente não precisamos dela... E muito menos deixar a alma para trás.
Muitas vezes fazemos isso sem perceber. Deixamos pendências e dores pelo caminho, situações não resolvidas, palavras não ditas, abraços não dados, pedidos de perdão arquivados, lágrimas engavetadas, dores anestesiadas.
A correria, o ter que resolver logo, o não vou dar conta, tem feito com que o que mais importa se perca nas curvas da estrada logo ali atrás. Não que cumprir tarefas, desempenhar o papel na rotina diária, dar resultados, servir para o pão de cada dia tenham perdido valor. A profundidade aqui é outra. A Alma neste contexto é o sentido da vida. A razão pela qual botamos a mão no arado. Pessoas, não coisas!
Quantas vezes você já ouviu alguém dizer que não viu os filhos crescerem? Ou que parece que foi ontem, mas já faz tanto tempo, nem notei? Dando sinais claros de que a alma não conseguiu andar na mesma pegada?
Da minha parte, sei que muito do que acelerei e corri, furando sinais vermelhos na jornada da vida não volta mais. É caminho no deserto, já coberto pela areia. Remoer e doer não resolve nada. Embora muitas vezes a oportunidade da cura, do perdão e paz apareçam. Geralmente é a alma nos alcançado. Mais uma razão para entender que desacelerar é preciso.
Sinceramente sei que nem sempre tive paciência suficiente para esperar o camelo chegar. Mas tem hora que é preciso acertar os ponteiros. Entender que a vitória solitária tem curta duração. Melhor é vencer por muitos e com todos. Parafraseando a linda canção, ‘andar devagar, porque já tivemos pressa.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2023
Livre estou
Não existe paz, sem a possibilidade de conflito. Não existe guerra sem esperança de que a paz retorne. Não existe crença sem o ceticismo da dúvida. Não existe dúvida sem a expectativa de que tudo mude. Não existem ovos mexidos sem a casca quebrada. Não existe quebra sem o desejo da reconstrução. Não existe muro se não houver um terreno ao lado. Não existe lado sem a existência do oposto.
Existir é ter, saber, conviver, entender, aceitar que outras existências também fazem parte do contexto. Estar aqui é ouvir, ver, sentir, perceber que mais pessoas estão também. De cores, crenças, estilos, opções, verdades, dúvidas, esperanças, expectativas, diferentes das nossas.
Uns preferem a gema mole, outros nem pensar. Uns chama Elvis de Rei, mas há aqueles que dizem que eram quatro os cavaleiros do rock and roll. E outros tantos ouvem outros sons e tons, dentro do modelo e cultura no qual nasceram ou foram criados. Pagodices, sambices, sertanejices, funquices, disse-me-disses à parte, gosto é gosto e fecha a conta. O que serve também para o check-list de preferências acima. Isso se esse negócio de existir é mesmo um emaranhando diário de posições contrárias.
A não ser que optemos por uma redoma. E lá dentro só estarão aqueles que falam o que falo, pensam como eu, dormem e acordam na mesma hora, deixam o volume no mesmo ponto, o som com as mesmas notas, a reza com a mesma fé, o desejo com o mesmo dogma, a aquarela sem diversas cores, o arco-íris com sete tons de cinza, a estrada reta e plena, a saúde sem espirros e a lua sem pegadas.
De minha parte optei por me desredomizar, se é que isso existe. Fora da bolha o risco está presente, eu sei. O de conviver com quem pensa diferente, come e bebe de outro modo, adora conforme crê, torce por outro time, viaja com muita mala, rói unha, chora com Frozen, fala sozinho, acorda tarde, namora diferente, gosta de cachorro e não de gato, mas é gente, como escolhi também ser. Gostando, inclusive, de Elvis e Beatles ao mesmo tempo.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2023
Palavras... Benedictas sejam
Tem o céu que a gente vê e a terra que a gente conhece. Tem a terra onde ainda não fomos e um céu que se derrama sobre nós. Tem o céu que acredito existir, mas só imagino. Talvez uma terra igual a essa, só que não. Tem o céu da ficção e a terra que fica nas mãos, sujas de pureza.
O ódio te chama pra dançar, a fúria fala docemente ao teu ouvido, a voz da sereia te chama para o fundo, o gigante te desafia para o mal, a sombra se aproxima da tua luz, o silêncio engasga tua voz e o dique bloqueia as águas. Mesmo assim você não desiste. Teimosia de quem se vê!
O medo também tem idade. Lá atrás, quando o tio contava histórias no sítio, assustava de um jeito mágico. Depois veio o medo do futuro, do que ser quando crescer. Suas formas viraram muitas. O não saber presente. Viver um pouco de paz, mas sempre alerta. Porta fechada ou aberta?
O que nasceu, o que viveu, o que morreu, o que deixou a morte a cruz e o sepulcro vazios. O que mais amou, o que religou, o que ainda fala, o que ainda me cala, pra aprender a ouvir, a sentir, servir. O que é Natal presente. Noel, Emanuel terra e céu. Não é meu, nem teu, é nosso.
Ouvi um ruído, tão diferente, presente, único. Incapaz de definir o que era, afinei os ouvidos. Podia ser um anjo, um outro tipo de vento pela janela, um pássaro desconhecido, uma nova nota musical. Quando desisti de tentar descrever consegui escrever. E o som era eu, lá dentro!
quinta-feira, 12 de janeiro de 2023
Insertes
Empresta-me tua audiência e te devoro. Fosse sincera a mídia, especialmente aquela na qual os robôs ditam as regras, essa seria uma frase dita mais vezes, ou maldita. Afinal, quanto do nosso tempo a “matrix-informação” tem nos tomado? Polegares, polegares, como estão? Assim estão; tornaram-se membros promovidos ao grau de importância máxima. Tipo o que o cérebro já foi um dia. Chato falar nisso né? Eu sei, até porque mexe comigo também. Meus polegares e nervos adjacentes já dão sinais de uso excessivo e dor. E o cérebro anda com saudade de ler mais.
E tem também as crianças. Falo com certa propriedade, porque duas já viveram em casa comigo e cresceram na migração que o mundo fazia para a terra prometida das redes. E agora temos uma pequena joia iluminando nossos dias; e ela, digitalmente falando, é um ser bem mais avançado que os demais membros da casa.
O quanto desse novo mundo afeta a vida de cada um de nós, tem sido uma preocupação constante. Não doentia, pelo amor de Deus. Fanático já basta um pedaço terraplano do mundo. Falo de senso de observação e análise. Estudo diário. Avaliação de comportamento. E o mais importante: o quando do que a filhota faz, deseja, vê e não abre mão, é parte do que enxerga e experimenta no convívio familiar. O que ela copia e cola? Não basta ser mãe e pai, tem que autoavaliar.
Claro que das mil e uma utilidades que os avanços oferecem, para a educação, saúde, rotina de trabalho, mobilidade, praticidade, existem muitas desvantagens e medos. Daí a razão para evitar a construção de uma torre de papel. Está tudo bem em evoluirmos. Um dia deixamos a caverna, noutro o tacape, e não muito tempo atrás saímos do obscurantismo e aprendemos a questionar e buscar respostas. Se bem que tem gente querendo voltar ao silêncio da inquisição. Mas, deixemos de lado isso; a ideia aqui é outra.
Proponho conversarmos mais. Compartilharmos as experiências no trato com a aceleração desses processos todos. Inclusive os riscos que corremos de tornar o digital um vício; nosso ou de pessoas que amamos...inclusive aquelas que nasceram há pouco tempo.
Proponho também uma sutil volta aos livros, às refeições sem celular, idas ao cinema, passeio no parque, viagens com moderação nas selfies e apreciação das paisagens. Abraços, brincadeiras, churrascos com piada e sem pressa, rodas de conversa, preces antes de dormir, gratidão ao acordar, baterias descarregadas, ar puro, café no coador, bom dia vizinho, boa tarde colega, boa noite amor.
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