segunda-feira, 12 de junho de 2023

Onde vivo com os monstros


 

Com o passar do tempo me descobri portador de dores que eu desconhecia. Não falo daqueles gemidos inevitáveis ao tentar fazer um movimento outrora mais leve, elástico e coreográfico. Essa dor já é anunciada, bate ponto todas as manhãs no estalar dos ossos. 

Me refiro a um outro tipo de incômodo dolorido. Tem mais a ver com a parte interior do interior, o oceano profundo do que imaginamos ser a vida.

Lá, nessa imensidão que a maioria desconhece, por não ter paciência para chegar, nem fôlego para alcançar, existem outras realidades nossas. Ali residem também quase todos os grandes medos, as criaturas da nossa insegurança, os recifes de coral dos nossos traumas. E o pior: num silêncio assustadoramente ruidoso.

Em determinados momentos da vida, por algumas circunstâncias que nos pegam meio de tanque vazio, acabamos afundando até esse mar profundo. Por incrível que pareça, um anestesiamento necessário nos faz enxergar naquela escuridão; respirar onde não parecia possível e até falar sem palavras.

Uma espécie de telepatia celestial, mesmo parecendo estar perto de um inferno.

Os bons mergulhadores entenderão...

E também, os que mesmo sem saber mergulhar até esse ponto da existência tiveram que bater o pé no fundo e tentar sair de volta. O que é como retornar de um sonho ruim, um mover de pés e mãos em conflito, num grito afogado.

Mas a gente sai. Volta à tona, nada  até  a praia, se auto socorre e não morre. Mesmo que paremos na areia seja de uma ilha deserta... é melhor do que cair num aquário.

 

 

segunda-feira, 27 de março de 2023

Sobre meninas e lobos

 



Eu tenho filhas, três criaturas maravilhosas. Tê-las no colo, a seu tempo, sempre foi a tradução mais pura de aconchego, proteção, cuidado, amor. Uma espécie de realidade paterno-maternidade existencial.

No momento em que escrevo esse pequeno delírio afetivo, o faço motivado pelas manchetes do dia. Entendo que se você estiver me lendo no futuro, preciso explicar bem que história é essa, pra não parecer um pai mais gagá do que um ainda saudável até pra ter mais um herdeiro.

É que no final de semana que antecedeu essas linhas, um pai, lá no belíssimo Rio Grande amado, invadiu, com a filha no colo, o gramado de um jogo entre Inter e Caxias, quando seu time colorado havia sido desclassificado.

Qual a razão da invasão? Pedir um autógrafo? Fazer uma selfie pra neném lembrar do passeio com o papai? Não!! Infeliz e lamentavelmente não.

O pai de família (até antes desse domingo acredito que ele era) pulou a cerca, agarrado à criança, e com a mão que sobrou distribuiu sopapos, tapas e pancadas nos jogadores do time rival. O choro e desespero da menininha não foram suficientes para evitar que o torcedor se comportasse como um idiota.

A torcida, o clube, o esporte, a paternidade, o lado bom do mundo não merecem nenhum generalismo. Ou seja, é preciso apontar quem, quando, como e onde, sem levarmos o desabafo para a arquibancada da vida.

E ao olhar pra ele, quase duvidando que alguém foi capaz disso, me vi novamente com as filhas no colo. Torcendo por elas!

segunda-feira, 20 de março de 2023

Minutinho não existe



Que desafio incrível é esse, o de manter a atenção e foco naquilo que estamos fazendo e também ao redor, no todo, no que acontece muito além do jardim. É algo como ficar com a bola no pé sem deixar de ver o jogo, os parceiros de equipe, adversários, juiz, espectadores...

No trânsito o desafio também cabe. Manter a atenção ao veículo, seu manuseio e desempenho, mas também o olhar macro, para o “lá fora”. Pedestres, ciclistas, motos, carros, sinais, além de diversas outras informações que surgem do nada, invadindo nossa mente pedindo um tostão de atenção.
Qual a razão então para essa impressão de que os minutos já não são mais os mesmos? Uma ligeira olhadinha para o nosso dia já basta para constatar que estamos tentando fabricar um outro tipo de tempo. Onde caiba dentro do mesmo período de 60 segundos um número enorme de coisas a fazer, decisões a tomar, mensagens para responder.

A relação que temos estabelecido com o exigente relógio moderno, tem ferido bastante a capacidade de atentarmos para o que é prioridade. Um déficit de atenção não diagnosticado evolui dentro de nós e não estamos parando para perceber.

O resultado pode ser muito prejudicial. Corremos o risco de perder a bola por simplesmente não conseguir dar atenção às mínimas coisas. Uma mistura de foco, não a prioridade nele, acaba por confundir nossas tarefas. Quero resolver isso agora, mas aquilo outro também...ah!, lembrei: tem mais um montão de outras coisas. Meu Deus! Esse tempo tá voando.

segunda-feira, 13 de março de 2023

A Mongólia é logo ali



Foi bem cedo, lá quando ainda me chamavam de Juninho, que aprendi a contar até 10. Uma façanha, dependendo da idade e do tamanho. Familiaridade com os números, as letras, as palavras. Migrar do papai e mamãe para falar paralelepípedo, helicóptero, saber quanto é 7 x 7, ou 46 x 27. A tabela periódica, onde fica a Mongólia, o denominador comum, o planeta Urano...

Aprender é parte de existir. Sempre o ambiente nos oferece a oportunidade de saber mais. E desde sempre as cobranças pelas respostas fazem da vida uma nova segunda-feira a cada dia. Não tem como fugir, a não ser que optemos pela caverna da mediocridade e a estagnação. Uma aposentadoria ainda com energia.

Fora isso, com 40 ou mais a estudante pode sim cursar sua graduação em Biomedicina, embora as colegas mais jovens acreditem que ela não sabe o que é o Google.

Na verdade, saber quem ele é trata-se da maior facilidade presente no presente. O que elas não entendem, ou não querem aprender, é que a maturidade nos ensina mais do que o robozinho por trás de quase tudo.

Contar até mil, talvez seja a maior das vitórias de quem não desiste.

Respirar, esperar, compreender, perdoar, recomeçar, escutar, insistir (não teimar), resistir, acreditar e ainda sorrir, mesmo que em meio a dor e lágrimas, são lições que lá na fase do contar até 10 era impossível ensinar pra gente. Até porque, quem lidava conosco lidava com isso também, só não conseguia passar direito pra frente. Era preciso chegar nossa hora de aprender a ferro e fogo.

Hora de mais um ponto final. O de hoje, é claro. Afinal, mais do que saber onde é a Mongólia, é preciso saber onde estamos.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Manda um zap


 

Você acredita no whatsapp? Como uma maneira de realmente se comunicar? Pergunto isso após ler a trágica história da criança que caiu do segundo andar de um prédio e morreu, enquanto sua mãe estava num passeio de barco. Longe de querer julgar quem quer que seja, cada um tem direito de fazer seus passeios e momentos de lazer, me refiro ao episódio para dar ênfase a outra forma de enxergar o caso. Aquela que tem levado muita gente a acreditar que mandar uma mensagem basta.

Nessa história, a mãe avisou o pai, que passaria pra pegar as crianças, também mandou texto para o sobrinho, que ficaria com elas, e parece que ainda avisou outros parentes, que teriam um tempo do dia com dois dos seus três filhos. Mas a tragédia escreve errado por linhas tortas. Ao se cercar de zapeadas maternais, ela  deixou de fazer algo que fazíamos até esses dias, que era conversar um com o outro. Quando não dava pra ser pessoalmente uma ligação ajudava a esclarecer muita coisa. Ficava claro, pois afinal era uma conversa. Ah, mas mandar mensagem também é... Discordo antes mesmo de chegar na segunda página!

Distante de qualquer refração à tecnologia, que é uma dádiva quando bem usada, penso que talvez precisemos repensar. E responder também. O que de fato funciona quando vai pro grupo? As mensagens são suficientes para esse assunto, ou ele merece um telefonema? (fazia tempo que não escrevia a palavra telefonema). Será que não é o caso de uma conversa pessoal? No grupo acima citado, ou com as pessoas mais próximas? Ou a pessoa?

Sabe, talvez tenhamos nos espreguiçando no teclado. O touch e suas facilidades, as conexões e suas acelerações, a mobilidade e a praticidade tem deixado o mundo rápido e ao mesmo tempo sonolento. São duas redes: a conexão na net e a rede entre ganchos na parede. Um descanso perigoso às vezes, quando acreditamos, como essa mãe que agora chora, que uma ou duas frases, ou um áudio, comunicam de fato.

Lamento mesmo a dor da família e a aquela que me leva a refletir sobre. E a responder minha própria pergunta do primeiro parágrafo. Sim, eu acredito no whatsapp. Mas não como um ser onisciente, onipresente e onipotente.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

No balanço das horas


                                     

Acordei mais cedo hoje,  acabei chegando  adiantado ao trabalho. Quando saí do carro e percebi que meus passos estavam acelerados a caminho da porta de acesso, lembrei de uma mensagem que citava um ditado rabínico que diz que ‘a alma anda na velocidade de uma camelo’. Descompassei no mesmo instante. Esperei um pouco, respirei e segui mais devagar para a benção que é poder trabalhar. Não precisava da pressa. Geralmente não precisamos dela... E muito menos deixar a alma para trás. 

Muitas vezes fazemos isso sem perceber. Deixamos pendências e dores pelo caminho, situações não resolvidas, palavras não ditas, abraços não dados, pedidos de perdão arquivados, lágrimas engavetadas, dores anestesiadas. 

A correria, o ter que resolver logo, o não vou dar conta, tem feito com que o que mais importa se perca nas curvas da estrada logo ali atrás. Não que cumprir tarefas, desempenhar o papel na rotina diária, dar resultados, servir para o pão de cada dia tenham perdido valor. A profundidade aqui é outra. A Alma neste contexto é o sentido da vida. A razão pela qual botamos a mão no arado. Pessoas, não coisas! 

Quantas vezes você já ouviu alguém dizer que não viu os filhos crescerem? Ou que parece que foi ontem, mas já faz tanto tempo, nem notei? Dando sinais claros de que a alma não conseguiu andar na mesma pegada? 

Da minha parte, sei que muito do que acelerei e corri, furando  sinais vermelhos na jornada da vida não volta mais. É caminho no deserto, já coberto pela areia. Remoer e doer não resolve nada. Embora muitas vezes a oportunidade da cura, do perdão e paz apareçam. Geralmente é a alma nos alcançado. Mais uma razão para entender que desacelerar é preciso. 

Sinceramente sei que nem sempre  tive paciência suficiente para esperar o camelo chegar. Mas tem hora que é preciso acertar os ponteiros. Entender que a vitória solitária tem curta duração. Melhor é vencer por muitos e com todos. Parafraseando a linda canção, ‘andar devagar, porque já tivemos pressa. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Livre estou


                                              

Não existe paz, sem a possibilidade de conflito. Não existe guerra sem esperança de que a paz retorne. Não existe crença sem o ceticismo da dúvida. Não existe dúvida sem a expectativa de que tudo mude. Não existem ovos mexidos sem a casca quebrada. Não existe quebra sem o desejo da reconstrução. Não existe muro se não houver um terreno ao lado. Não existe lado sem a existência do oposto. 

Existir é ter, saber, conviver, entender, aceitar que outras existências também fazem parte do contexto. Estar aqui é ouvir, ver, sentir, perceber que mais pessoas estão também. De cores, crenças, estilos, opções, verdades, dúvidas, esperanças, expectativas, diferentes das nossas. 

Uns preferem a gema mole, outros nem pensar. Uns chama Elvis de  Rei, mas há aqueles que dizem que eram quatro os cavaleiros do rock and roll. E outros tantos ouvem outros sons e tons, dentro do modelo e cultura no qual nasceram ou foram criados. Pagodices, sambices, sertanejices, funquices, disse-me-disses à parte, gosto é gosto e fecha a conta. O que serve também para o check-list de preferências acima. Isso se esse negócio de existir é mesmo um emaranhando diário de posições contrárias. 

A não ser que optemos por uma redoma. E lá dentro só estarão aqueles que falam o que falo, pensam como eu, dormem e acordam na mesma hora, deixam o volume no mesmo ponto, o som com as mesmas notas, a reza com a mesma fé, o desejo com o mesmo dogma, a aquarela sem diversas cores, o arco-íris com sete tons de cinza, a estrada reta e plena, a saúde sem espirros e a lua sem pegadas. 

De minha parte optei por me desredomizar, se é que isso existe. Fora da bolha o risco está presente, eu sei. O de conviver com quem pensa diferente, come e bebe de outro modo, adora conforme crê, torce por outro time, viaja com muita mala, rói unha, chora com Frozen, fala sozinho, acorda tarde, namora diferente, gosta de cachorro e não de gato, mas é gente, como escolhi também ser. Gostando, inclusive, de Elvis e Beatles ao mesmo tempo.