segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Como uma onda sem mar (navegue com moderação)



Antigamente navegar era poesia. Nos remetia ao mar, ao desconhecido, aos desafios da viagem rumo a algum norte qualquer.
Não sou contra a nova forma de se navegar. Essa que se faz na ponta dos dedos, conectada, em rede, cheia de abreviações, exclamações, fotos, vídeos e admirações.
Navego assim também, mas sem a preocupação de ter o melhor touch, o mais moderno smart ou a conexão mais poderosa. Não vivo a neura de ter  um iate no bolso ou na palma da mão. Um bom barco que me leve, faça chegar e receba minhas mensagens já está bom. Não quero depender dele para tudo. Nunca fui de morar em alto mar.

Gosto do chão, do cheiro da terra, do barulho da rodas dos carros quando passam na poça d'água.  Gosto de uma boa conversa. De ouvir e falar, de rir e chorar com a pessoa perto.
Num show, não quero gravar  aquela canção. Quero que ela fique guardada aqui dentro, letra, música e momento.

Claro que a foto do flagrante, a denúncia que desbloqueia o gesso de uma mídia louca para não dizer, são benefícios, conquistas, avanços inquestionáveis. Também faço uso dessas armas quando navego. 
Mas acho triste, quando numa roda de amigos, ou numa mesa em família, um aparelhinho na mão de quase todos crie uma enorme distância de um metro ou dois. Ali tão perto, vão ficando longe. Palavras que antes eram faladas, não se ouvem mais, por conta do barulho das ondas.

Por favor não pense que estou querendo discursar na base do "sou do tempo em que". Nem que sou daqueles que querem caçar as bruxas on line e queimar os smartphones em praça pública. Queimar não, nunca. E meu barquinho? Se fosse assim eu também sairia perdendo. Não navegaria mais...

Estou falando de aprender a desligar, de vez em quando. Parar na praia. Descer para ver as pessoas. Olhar para elas, comer com elas, desfrutar de sua companhia. Sem pressa. Sem conexão via satélite, rede, parabólica, fio, sem fio, ou via rádio. Como é bom um bate-papo sem pegadinhas gravadas e postadas. Uma conversa só com histórias contadas.

Ah, diriam alguns, dessa tal modernidade ninguém escapa, não adianta. Todo mundo vai acabar entrando no mesmo barco. 
Pode ser.  Sei que é forte a corrente dessas águas. 
De qualquer modo, prefiro acreditar que ainda tem gente que prefere gente. Com carne, osso e alma. Gente que consegue desligar o celular na hora de um filme, por exemplo. Como fazíamos quando o cinema era uma viagem que não permitia interrupção, nem para ir ao W.C.. Por falar em banheiro, navegar  aí  já é demais, desligue isso agora! Pipipipipi....

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Apertem os cintos


Viajar de avião já foi um luxo. Era quase um acontecimento sobrenatural ter alguém na família que tivesse voado. Isso   elevava tal pessoa  à  categoria de ídolo. Fosse um tio, ou um primo que morasse no exterior, ou algum lugar distante, a experiência deles no ar virava assunto de final de ano ou tema importante em qualquer reencontro. Voar era para os pássaros, e alguns um pouco mais endinheirados.

Hoje isso mudou. Os aeroportos estão parecidos com rodoviárias e, em alguns casos, piores que algumas paradas de ônibus. Atolados de gente, com voos a toda hora e para qualquer lugar, lamentavelmente eles não evoluíram. Os usuários também não. E pior, os funcionários e empresas de aviação idem. Portanto, viajar de avião está muito longe de ser uma experiência agradável. As filas enormes, a falta de conforto, a inexperiência e falta de aptidão de trabalhadores mal pagos e mal treinados, e a incrível falta de educação da maioria, tem transformado as viagens de férias em aventuras trash.

Só uma coisa continua dando a impressão de que voar é para os ricos: os preços cobrados nas praças de alimentação. Que de praça não tem quase nada e de alimentação muito pouco.

Copos d’água podem custar quatro reais, um pão com presunto e queijo batizado com qualquer nome inglês ou francês chega a 18. Para poder tomar uma geladinha ou um choppinho, enquanto se espera aquela conexão que levará mais de cinco horas, o cidadão precisa de uma boa conta ou um senhor crédito no cartão E corra logo com o pedido, pois tem muita gente faminta atrás de você e todos estão presos no mesmo lugar e querem comer, mesmo que o valor pago seja o igual ao de uma compra no supermercado.

Sair a retornar também é perigoso e caro. Táxis de aeroportos, em muitos lugares do Brasil, utilizam um preço único para a viagem ao centro das cidades. Mesmo que isso seja proibido. Aliás, o copo d´água cujo preço já deve ter aumentado enquanto escrevo, deveria ser proibido também. Parece até que é, mas quem deveria investigar, fiscalizar, criar mecanismos para mudar isso deve estar viajando neste momento. E possivelmente seu lanche será pago com dinheiro dos nossos impostos. 


Portanto, comece a levar uma marmita nas próximas viagens. Ninguém vai se escandalizar, já que a geração farofa viaja pela  mundo sem medo de abrir a tampa. Se ela apitar quando passar no detector de metais fale a verdade. Diga aos fiscais que você trouxe comida de casa. Duvido que algum deles vai  te recriminar. Lá na salinha de descanso suas marmitinhas também estão esperando para ser devoradas. Quem trabalha em aeroporto já sabe que a praça de alimentação é zona proibida. A não ser para os ricos, que geralmente voam de jatinho, longe da gentalha, gentalha…

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Porto entreaberto


Estou muito triste com essa nova onda de assaltos e violência em Porto Velho. Cidade com a qual mantenho forte vínculo histórico, afetivo e profissional. E para quem ainda me dedico, já que o maior investimento do Hospital hoje é na Capital de Rondônia. Sempre fui combativo nos programas, artigos, crônicas e comentários, sobre a insegurança da população dessa cidade. 
Hoje, pelo que vejo nos relatos de amigos, leio nas manchetes, ouço no rádio e acompanho pela TV, a situação piorou. Impressionante! Um lugar tomado de assalto. Em várias esferas, com e sem armas, e sempre com violência.
A violência da agressão física e verbal e a violência que segue doendo; já que a certeza de impunidade, o vazio da incompetência para acabar com o crime, o desassossego do abandono e o conformismo de governantes e até mesmo da sociedade, abrem alas para que mais criminosos apareçam.Engravatados ou não. Armados ou não.
Lamento, profundamente! Como vítima, que também fui, e alvo de ameaças, que sempre fui, sinto a dor da boca fechada de muitos e do grito sufocado da maioria. Inadmissível que tantos bandidos consigam fazer tanto durante tanto tempo, e quase nada ser feito.
Caso de polícia? Claro... Mas é caso de mobilização social também. Os moradores, internautas, contribuintes, não podem mais aceitar esse estado de coisas. O basta deve ser dado não somente nas urnas, já que elas também tem aprontado das suas.  O basta precisa ser dado aqui, nas redes, nas ruas, nos púlpitos, nos altares, nas reuniões, nas assembleias, nas conversas e manifestações organizadas. 
Uma cidade refém é uma cidade quase morta. Um povo violentado, humilhado, com medo de ser a próxima vítima, deve ainda ter uma força que resta, uma energia final para se erguer.  
Acredito muito que essa gente que foi capaz de construir uma cidade a partir de tantos idiomas, dialetos e sotaques é competente também para mudar isso. A capacidade de um povo é medida pelo caráter de sua história e a personalidade de quem viveu para construí-la.  
Porto Velho precisa quebrar a cadeia que prende sua gente e gritar pela liberdade de quem trabalha honestamente e não deveria ficar preso dentro de sua própria casa. Porto Velho precisa renascer. Mesmo sabendo que dói. Mesmo sabendo que haverá dissabores e barreiras a serem quebradas. Mesmo sabendo que reconstruir dá ainda mais trabalho. Mesmo sabendo que o inimigo não tem medo.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Asas do coração

No leito de morte reuniu os filhos. Os quatro não se viam há um bom tempo. Cada um tinha ganhado rumo,  como dizem. Vivendo numa confortável distância, sem precisar de um ambiente que tinha deixado de ser família e se transformado num inferno. A mãe, separada dele desde sempre, não sabia se ia, se ficava, se sorria.  A dor  era maior que a saudade, embora ela também existisse.

O quarto do Hospital tinha oxigênio nos tubos mas pouco ar respirável. Não cabia tanta gente desconectada num lugar só. A conversa em tom de despedida seria difícil. Poderia tornar-se insuportável se alguém quisesse explicar o inexplicável, ou relembrar algo  que o tempo já tinha se encarregado de anestesiar.

Com pouca voz e pouca vida ele falou pouco. Seu pedido de perdão foi nominal, mas sem detalhes. Para cada filho uma  frase ou duas e lágrimas de sobra. Mais dele do que deles. Era um choro de arrependimento sem censura. Um choro de despedida de tudo, com doses pesadas de medo.

Ele sabia que era seu último dia. Não queria deixar o que restava dele sem recuperar um pouco do amor que existiu em algum lugar lá atrás.

Foi quando a mãe chegou. Era ainda uma mulher linda. O tempo não conseguiu apagá-la. E sua força tinha energia suficiente para uma família inteira. Sabe-se lá  Deus onde ela achava tanto combustível para viver. Entrar naquele lugar, juntar mãos, beijos e abraços, chamar para a vida gente que nem se falava mais, suplicar que ninguém saísse dali sem perdoar e se permitir   recomeçar.  Parecia  algo sobrenatural… E ela era mesmo uma mulher de outro planeta.


Quando ele fechou os olhos para descansar de vez, de fato serenou. Antes do fôlego final viu um pouco do céu aqui na terra, através daquela que um dia ele chamou de meu anjo.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Eu, falecido


No dia em que eu morri, veio tanta gente. Alguns  eu não via há muito tempo e depois de alguns dias minha família nunca mais os viu. Sumiram. Bateram o cartão no velório e a lágrima secou logo. Talvez pensem que o abraço que deram duraria para  outra  vida toda. Não os cobro, nem culpo. A morte faz dessas coisas mesmo. Reúne saudosos, liga e religa familiares e dá uma oportunidade para que muita gente se reveja, retome a prosa, conte uns causos e até dê algumas risadas no meio da madrugada, com as velas pelo meio.

No dia em que eu morri, chovia. Lá fora muito, na capela um pouco. Na goteira perto das cadeiras e nos olhos de quem chovia de saudade. Lágrimas bonitas, salgadas de dor e doces de amor. Claro que se eu pudesse dizer alguma coisa eu diria. Mas não podia. A hora era de um silêncio meu que sinceramente não me serve. Falante, com palavras pela boca ou escritas pelo tempo, ficar quieto enquanto os outros diziam não foi nada fácil.

Ainda mais quando elogiavam muito, num exagero que não me deixava vermelho porque eu já estava roxo. Alguns, no canto e na calçada faziam umas críticas mais pesadas. Talvez injustas. Mas tanto faz, não dava pra me defender e nem precisava. No dia em que morri, brigar era algo que eu não queria, nem mesmo com quem por dentro ria. Deixa pra lá. Um dia a gente se reencontra e em outra vida talvez o perdão e a compreensão sejam mais fáceis de dizer e fazer.

No dia em que eu morri, o mais difícil foi não dizer adeus mais vezes. Gente que amo muito ainda estava agarrada a quem eu fui, sem querer me deixar ir para onde serei agora. Compreendo, claro. No fundo eu não queria deixar ninguém pra trás. E por falar em fundo, lá só ficou o corpo. Eu fui para o alto, longe de uma terra onde a violência, a dor, a insegurança e a intolerância fizeram dela um lugar difícil de viver  e fácil de morrer.

No dia que chegar teu dia, conversaremos sobre…

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O eleito



Pedia votos como ninguém. Comia pastel, bebia cachaça, almoçava mais de uma vez, pegava ônibus, chorava   nos velórios. Nas festas abraçava noivos, aniversariantes, padrinhos e madrinhas, sem precisar de convite. Sua cara-de-pau  era tamanha que ninguém tinha coragem de desconvidá-lo.

Em reuniões de condomínio, futebol na várzea, culto, sessão espírita, missa e até despacho na encruzilhada, onde tinha um eleitor, lá estava ele. Um campeão em segurar criancinhas, elogiar vovozinhas e contar histórias de como a vida de candidato pobre é difícil.

Filomeno Gergelim era o que se pode chamar de político de carreira. Sabia o que queria e era capaz de saber também pelos outros. Antes mesmo do eleitor pedir algo o homem já prometia. Tinha olhos de águia e lábia  de sereia. Via de longe o que aquele bairro precisava, o que a associação dos moradores imaginava e até mesmo o que aquela mãe iria chorar pedindo. Era quase um mágico. Um ilusionista. Um ser iluminado. Ao menos era isso o que o povão sentia. Ai de quem duvidasse. Gergelim tinha virado um ídolo. Seu slogan “ao menos dê uma chance ao Filomeno” era hit  na cidade e terror da situação.

Sua vitória foi de lavada. Um marco eleitoral. As urnas explodiram com Filomeno pra todo lado. Até no centro, onde o candidato a reeleição acreditava que iria vencer, Gergelim tirou de letra. Venceu e foi carregado nos braços. O povo tinha nele a volta da esperança. Agora sim a cidade iria sair do buraco.

Só que a história se encarrega de desfazer mitos. Ou ao menos apaga bem as imagens feitas com tinta fraca. O homem ficou lá naquela prefeitura por um bom tempo. Das criancinhas ele até lembrava. Afinal as quatro filhas insistiam em levar os netinhos para brincar na sala de reuniões.

Mas a criançada do povo, os bairros, aquela gente com quem ele tinha a pachorra de até andar junto no busão para ouvir suas histórias, desses ele simplesmente esqueceu. Ou finge que não sabe de quem se trata. Ao botar o bumbum na cadeira de comando, sua memória foi automaticamente desligada. O coração esfriou, as lágrimas secaram, o discurso murchou. Se não morreu e colocaram um clone ali, pode se dizer que de fato o homem era mesmo mágico. E sabia desaparecer!

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Céu negro


No  desenho  que ele fazia, chovia. O céu estava sempre negro. Os médicos, os professores, todos os que o acompanhavam no Hospital já haviam percebido que o que ele queria dizer tinha a ver com a morte. Mas seu sorriso era tão vivo. A expressão do seu olhar era a de um céu azul.  Havia nele  um dia  repleto de sol e uma noite cheia de estrelas brilhantes. Só no papel ficava o registro da partida. Um adeus molhado.

Hoje, quando   me deram a notícia de que o garotinho que desenhava o céu chuvoso havia morrido, meu choro veio tão rápido, choveu tão depressa em mim. Corri para escrever, como se as palavras pudessem formar um guarda-chuva. Protegendo-me do que cai do céu, mas não do que vem de lá.

O problema é que o barulho do trovão a gente sente por dentro. A dor se manifesta de tantas maneiras. Só chorar parece que não esvazia. Só escrever parece que não sacia. Que raio é esse o de querer entender, gritar, correr, perguntar todos os porquês mesmo sabendo que poucos  deles vem embalados com as respostas.

Sei que hoje o lugar onde o conheci, as salas, as alas, os setores, os corredores, estão menos coloridos. Seria demais pedir que tentem pintar um quadro onde a casinha no pé da montanha esteja rodeada de árvores frondosas e crianças no pique-esconde.

Deixem então o desenho pregado no quadro de recados. Um céu negro, com chuva forte caindo.

Permitam que a arte da vida continue tentando explicar o capítulo final.

E chorem. A tinta de quem viveu para ser amado, não se apaga com o que sai no choro.

A luz de quem viveu tão pouco não se acaba com a tempestade.


No desenho que escrevi hoje, também chove!