segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O eleito



Pedia votos como ninguém. Comia pastel, bebia cachaça, almoçava mais de uma vez, pegava ônibus, chorava   nos velórios. Nas festas abraçava noivos, aniversariantes, padrinhos e madrinhas, sem precisar de convite. Sua cara-de-pau  era tamanha que ninguém tinha coragem de desconvidá-lo.

Em reuniões de condomínio, futebol na várzea, culto, sessão espírita, missa e até despacho na encruzilhada, onde tinha um eleitor, lá estava ele. Um campeão em segurar criancinhas, elogiar vovozinhas e contar histórias de como a vida de candidato pobre é difícil.

Filomeno Gergelim era o que se pode chamar de político de carreira. Sabia o que queria e era capaz de saber também pelos outros. Antes mesmo do eleitor pedir algo o homem já prometia. Tinha olhos de águia e lábia  de sereia. Via de longe o que aquele bairro precisava, o que a associação dos moradores imaginava e até mesmo o que aquela mãe iria chorar pedindo. Era quase um mágico. Um ilusionista. Um ser iluminado. Ao menos era isso o que o povão sentia. Ai de quem duvidasse. Gergelim tinha virado um ídolo. Seu slogan “ao menos dê uma chance ao Filomeno” era hit  na cidade e terror da situação.

Sua vitória foi de lavada. Um marco eleitoral. As urnas explodiram com Filomeno pra todo lado. Até no centro, onde o candidato a reeleição acreditava que iria vencer, Gergelim tirou de letra. Venceu e foi carregado nos braços. O povo tinha nele a volta da esperança. Agora sim a cidade iria sair do buraco.

Só que a história se encarrega de desfazer mitos. Ou ao menos apaga bem as imagens feitas com tinta fraca. O homem ficou lá naquela prefeitura por um bom tempo. Das criancinhas ele até lembrava. Afinal as quatro filhas insistiam em levar os netinhos para brincar na sala de reuniões.

Mas a criançada do povo, os bairros, aquela gente com quem ele tinha a pachorra de até andar junto no busão para ouvir suas histórias, desses ele simplesmente esqueceu. Ou finge que não sabe de quem se trata. Ao botar o bumbum na cadeira de comando, sua memória foi automaticamente desligada. O coração esfriou, as lágrimas secaram, o discurso murchou. Se não morreu e colocaram um clone ali, pode se dizer que de fato o homem era mesmo mágico. E sabia desaparecer!

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Céu negro


No  desenho  que ele fazia, chovia. O céu estava sempre negro. Os médicos, os professores, todos os que o acompanhavam no Hospital já haviam percebido que o que ele queria dizer tinha a ver com a morte. Mas seu sorriso era tão vivo. A expressão do seu olhar era a de um céu azul.  Havia nele  um dia  repleto de sol e uma noite cheia de estrelas brilhantes. Só no papel ficava o registro da partida. Um adeus molhado.

Hoje, quando   me deram a notícia de que o garotinho que desenhava o céu chuvoso havia morrido, meu choro veio tão rápido, choveu tão depressa em mim. Corri para escrever, como se as palavras pudessem formar um guarda-chuva. Protegendo-me do que cai do céu, mas não do que vem de lá.

O problema é que o barulho do trovão a gente sente por dentro. A dor se manifesta de tantas maneiras. Só chorar parece que não esvazia. Só escrever parece que não sacia. Que raio é esse o de querer entender, gritar, correr, perguntar todos os porquês mesmo sabendo que poucos  deles vem embalados com as respostas.

Sei que hoje o lugar onde o conheci, as salas, as alas, os setores, os corredores, estão menos coloridos. Seria demais pedir que tentem pintar um quadro onde a casinha no pé da montanha esteja rodeada de árvores frondosas e crianças no pique-esconde.

Deixem então o desenho pregado no quadro de recados. Um céu negro, com chuva forte caindo.

Permitam que a arte da vida continue tentando explicar o capítulo final.

E chorem. A tinta de quem viveu para ser amado, não se apaga com o que sai no choro.

A luz de quem viveu tão pouco não se acaba com a tempestade.


No desenho que escrevi hoje, também chove!

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Linha ocupada

Dia desses enviei mensagens e telefonei para alguns amigos. Narrei o início de uma crise. Falei a respeito de uma necessidade urgente e que isso implicaria na ajuda deles. Um por um, amáveis e atenciosos à distância, todos se propuseram a colaborar. Cada um do seu jeito, mas solícitos. Os dias estão passando, a conversa ficando para trás, perdida em algum horário, agenda ou pequena lembrança. Não para mim, claro. Me lembro bem da reação, da solicitude, da esperança que cada um aplicou no depósito do meu coração.

Sorte minha que a crise que se mostrava como um poderoso furacão, vindo em direção a uma frágil casa na beira do rio, não era tão forte assim. Um vento forte, com alguns raios e trovões definem melhor o que ela representa. Não cai, nem me machuquei. Ao contrário, sinto-me melhor e mais forte. Ao mesmo tempo em que me vejo mais solitário e descrente.

Talvez eu tenha contado com as pessoas erradas. Buscado um porto seguro em quem possivelmente nem tenha uma âncora para segurar o barco. Pode ser que alguns deles ainda estejam pensando nas mensagens e telefonemas e buscando em segredo uma forma de me ajudar. Pode ser. Pode não…

Certo é que a medida de prioridade da gente está em outra escala na escala do outro. Servir é o melhor remédio. Ser servido, buscar socorro, embora seja íntegro, necessários às vezes, humano, natural, nem sempre significa colher fruta madura. Existe um sabor amargo no esquecimento. Um fel pastoso na indiferença. Uma cavidade apodrecida.

Prefiro pensar que falei com os amigos errados. Ou que os que escolhi estão ocupados demais com suas próprias crises. Talvez até o furacão tenha passado lá na praia deles e eu andei tão preocupado com a minha. Talvez!

Acho que vou mandar novas mensagens, ou ligar dizendo que já passou. Está tudo bem antes do ano que vem. Antes vou ensaiar bem o texto. Não quero que pensem que é orgulho ou destempero. Mas vou começar a conversa lembrando a crise. Vai que eles esqueceram mesmo…

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Mafalda

 O objeto mais próximo dos meus dedos, quando teclo, é uma pequena Mafalda. Feita de gesso e com uniforme da Argentina, ela é parte importante do cenário da minha mesa. Identifica o que gosto e o quanto acredito no fim dos muros e construção de pontes entre as pessoas.
Quando me questionam sobre ela citando seu nome, opa, que beleza, alguém que conhece a genial personagem e suas tiradas sempre atuais. Quando simplesmente querem saber o que faz uma menininha com a camisa dos rivais em minha mesa, geralmente limito a resposta a alguma coisa óbvia e simples. Digo que foi presente de um amigo que visitou Buenos Aires e pronto. Geralmente dá certo.

Tem gente que faz uma cara tipo, hummm, bonequinha na mesa, sei não!! 
O pior é que ela está ao lado de um Minion, aquele amarelinho do Meu Malvado Favorito. Antes que eu diga que foi presente das filhas, hummmm, sei não, dobrado!

Minha Mafalda fica de costas para mim e de frente para as visitas. Ocupa um lugar de destaque, entre agendas, papéis, cartões e o controle do ar-condicionado. Gosto dela ali. É também uma forma de homenagear  seu criador, o genial Quino.  Um  cara  que foi capaz de dizer, através de uma boquinha desenhada, que o jeito é encarar a artificialidade com naturalidade, ou que o mundo tem cada vez mais gente e menos pessoas.

Minha Mafaldinha também me faz lembrar o tango, um bom vinho, uma carne suculenta o cinema argentino e Ricardo Darín, que parece estar em todos os filmes portenhos.
Sim, também sou fã de Maradona e Messi. E do Boca. Mesmo sendo corintiano em terras brasileiras.
Com tantas revelações, sou candidato nato a ser reprovado por meus leitores hoje. Ou sacrificado nas redes. Por mim, tudo bem. Desde que dona Rosângela não derrube a Mafalda quando limpar a mesa.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Confissões de um passageiro

Confissōes de um passageiro

Parar num aeroporto e saber que vou esperar três horas não é nenhum pouco inspirador. Aeroportos são os lugares em que as pessoas não estão ali. 
Mas saber que retorno para os braços e aconchego de quem amo, depois de buscar ajuda e doaçōes para pessoas que aprendi a amar, faz a espera parecer menos dolorosa. 

Hoje, além da gostosa sensação da volta pra casa, lembrei de viagens que fiz com a família quando voar era algo de ficção científica pra mim. Para uma criança do interior, que passava as férias na cada da avó e sítio do tio, avião era coisa de outro mundo. O mundo da imaginação.

Aventura mesmo era o Fusquinha do pai, na estrada que ligava Araçatuba a Auriflama. No trecho de terra, perto Patrimônio da Mata ou Major Prado, era batata contar com uma pausa para sair todo mundo e ajudar o carro a superar o atoleiro. Incrível como o barro e a lama faziam menos mal naquela época.

Senti até o balanço do carro prum lado e o volante para o outro, com seu Benedicto garantindo que tudo ia dar certo. A gente chegaria ainda hoje. E chegava mesmo!

Estou mais chique agora. Acabo de comer um arroz com batata sotê e brócolis, além de mais algumas tirinhas disso e daquilo, perto de pessoas cheias de malas importadas, roupas de grife e celulares iluminados. Tantos destinos esperando tanta gente e eu recordando o carro atolado.

E acredito que essa recordação é meio que um sinal de alerta. Volta e meia sinto alguns aromas, vejo alguns rostos, ouço sons e percebo algo que me remete a um tempo atrás. Claro que isso acontece com todos. Eu sei! Mas os celulares iluminados, que interrompem boas prosas, as malas que carregamos com pressa para conseguir ficar em pé no corredor do avião, a roupa que aponta a conta bancária, não deveriam nos separar da época em que viajar era complicado e chegar era sublime.

Meu nível de nostalgia está bem acima de 12 por 8 agora. Melhor desligar o tablet. Olhei para ele e senti falta da máquina de datilografar. Aí já é demais...


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O dia em que o mundo parou

No 11 de setembro, 12 anos atrás, eu estava em Cascavel, no Paraná, numa sala da Unioeste, a Universidade onde eu trabalhava. Na verdade, já em clima de despedida. Naqueles dias eu  tinha aceitado o convite para mudar pra Rondônia com a família. Me preparava para o desafio de colaborar na instalação, montagem e início de trabalhos de uma rede de televisão. Começaria por Ji-Paraná, para onde nos mudamos pouco tempo depois do dia em que o mundo parou.

Lembro-me bem dos prédios em chamas e de todo o drama da cobertura jornalística com imagens e textos jamais imaginados. Se bem que o que mais me lembro, e até hoje me causa repulsa, foi ver e ouvir alguns colegas vibrando com a tragédia. Comemorando a ação terrorista. Aplaudindo as torres em chamas e o que chamavam de vingança contra o império, contra o capitalismo. Coisas do tipo.

Aquele foi um dos silêncios mais dolorosos que já calaram minha boca e alma. Não entendo até agora como foi que travei por completo. Quero acreditar que a dor da imagem, com seu ineditismo e furor, devem ter  me anestesiado a tal ponto que não consegui retrucar os torcedores de plantão. Gente que celebrava a morte de inocentes como quem celebra um gol em final de Copa do Mundo.

Por favor não me venha apontar as mortes de inocentes causadas pelos Estados Unidos da América. Eles que paguem pelos seus muitos erros. Morte de inocentes nós também temos. Nas favelas, nos corredores de hospitais abandonados, nas periferias cheirando crack, nas praças prostituídas, nas agências bancárias explodidas, nas escolas invadidas, na solidão do quarto que violenta e cala, nas estradas alcoolizadas ou no cano de uma arma empunhada por mãos que nasceram há pouco mais de 12, 14, 16 anos.

Nada justifica o terrorismo. Como nada justifica a violência que comentei logo ali. Mas, pense comigo, pode se justificar o prazer em ver a morte alheia? Como ainda me dói recordar a celebração da morte distante, como se ali não estivesse presente um de nós.

Claro que o título lá em cima é um exagero. O mundo não parou. Parece-me que nem para pensar ele parou direito.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Você sabe com quem está falando?

No filme O Informante, Al Pacino interpreta um jornalista em crise. Sua ética é colocada em xeque quando uma reportagem bomba sobre a indústria do tabaco deixa de ir ao ar. Comprometendo a promessa que fez ao entrevistado e sua própria história na televisão. É um daqueles bons filmes, com  algo a mais. Num determinado momento o personagem fala sobre a fama e desabafa: Tire o nome da empresa do meu nome e simplesmente desapareço.  Existo porque depois do meu nome vem o dela…

É fato! Durante muito tempo e por uma série de razões, existimos porque ao nosso nome é acrescentada a instituição tal, ou empresa x,  igreja y, entidade z. Sou o Fulano, da…, ou essa aqui é a Cicrana, do…

Carregamos nome, sobrenome e um outro nome. Claro que isso tem um lado positivo. É nossa identidade profissional. Com ela apresentamos quem somos e o que fazemos. Muito do que vem após o nome demonstra também o que cremos ou a razão de estarmos realizando determinado trabalho.

O peso do desabafo no filme tem um outro sentido. E nele me apego para desabafar também. Principalmente por causa de pessoas que carregam após o nome não somente a marca ou o peso institucional ou corporativo. Preferem arrastar as correntes da arrogância. A genética da prepotência. O DNA da luxúria e a soberba do sou-mais-e-melhor-que-você.

O lamentável é que quando chegam nesse estágio, se esquecem que ao ser retirado o nome da marca após seu nome elas podem desaparecer. Ou seja, não é a sua história, sua própria identidade, seu desempenho como gente, sua contribuição para a humanidade, seu zelo como amigo, seu amor ou humanidade que ficaram. A pessoa que havia ali foi substituída por um crachá no peito e uma sentença na cabeça. E de repente volta a ter nome e sobrenome, como qualquer mortal, só que sem vida.


Minha prece é para que meu crachá seja sempre menor que meu coração. O cargo menor que a função. E o respeito ao próximo, com ou sem nome de empresa no final, mais profundo que o status ou a fama. Que desaparecem também. A não ser que a imagem tenha luz própria. E sirva para iluminar a vida dos outros.