quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Anônimos



Sabe aquele saquinho de lixo que estava dentro da lixeira quando você jogou algo que não queria mais? Alguém colocou lá. O papel higiênico, a garrafa com água na geladeira, o pote de margarina, o pão...
Em casa é assim, na rua e na empresa também. Alguém chegou antes e deixou tudo preparado para que você e eu  pudéssemos  usar. O lixeiro recolheu o lixo, o gari limpou as vias, o técnico consertou o semáforo, a zeladora limpou a mesa, os banheiros, os corredores e o caminho estava livre para acordarmos, tomarmos café, sairmos  e começarmos mais um dia.

Quando voltarmos, alguém terá feito muito mais pra que tudo funcione do que nós mesmos fazemos. Claro que cada um executa sua tarefa e é assim que caminha a humanidade. Não disse e não digo que o que eu e você fazemos não tem valor. Ao contrário! Digo que o valor do que fazemos está também baseado no terreno preparado por outros.

E eles são os anôminos, os esquecidos, os que muitas vezes não ganham nem um bom dia. Quanto mais um muito obrigado. Um presente ou alguma recompensa?? Nossa senhora das gorjetas, aí sim é muito raro.

Pensei muito neles e o quanto às vezes perdemos a paciência porque o caminhão de lixo está no meio da rua e queremos que ele saia logo. Meu Deus! Que minutos tão importantes são esses que não podemos esperá-los passar? Os caras estão pegando o resto daquilo que para nós não presta mais.

Por favor não me diga que a ou b estão ganhando pra trabalhar e tem mais que fazer o seu mesmo e pronto. Não é sobre pagar ou não pagar que estou falando. É sobre reconhecer, agradecer, entender, valorizar, enxergar...

Afinal, se uma pessoa se esforçou para que meu bem-estar fosse preservado, seja ela de casa ou não, esse alguém é especial. Me ajudou muito. Deu-me a chance de viver melhor aquele dia.  

Qual o seu nome? Ele tem família? Tem sonhos? Faz um trabalho aparentemente mais humilde por quais razões? Teve oportunidades? Ah, em casa também tem alguns anônimos? Tua mãe não ganha um muito obrigado há quanto tempo? E a pessoa que ajuda vocês de vez em quando? A vizinha que cuidou da casa enquanto você viajou por uns dias, a empregada, o carteiro, o cara do gás...


Tudo bem, andamos muito ocupados, não é mesmo? Não dá tempo de agradecer a todos. 


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Seat for flotation

Sempre que posso eu atendo a convites para dar palestras. Falo sobre ética no trabalho, marketing pessoal e resiliência. Você sabe o que é resiliência? Viu! Deve ser por isso que estou sendo chamado cada vez menos...
Nos longos intervalos entre uma palestra e outra, aproveito pra me aprofundar em alguns tópicos dos 3 temas. Quando falo em resiliência, a capacidade que a gente desenvolve para conviver em ambientes com muita pressão, geralmente abro citando o exemplo dos tipos de pessoa encontrados em momentos de desespero ou tragédia. Numa queda de avião, ou um prédio pegando fogo, por exemplo.

Dizem os entendidos que existem três tipos de pessoa: aquela que fica paralisada, catatônica, trava toda e não consegue fazer nada, a que se desespera totalmente e corre de um lado pro outro e, por fim, o que consegue manter a calma, socorrer os demais, orientar e buscar uma saída com um mínimo de sangue frio e consciência.

Descobri que existe também um quarto tipo de pessoa: é o comediante de stand up.  O  observador, que consegue identificar cada um na sua e ainda sobrevive. Depois vai pro palco, conta tudo, exagera e ganha dinheiro. Ao invés de tentar ajudar fica só de olho: Humm, aquele ali vai morrer; não sai do lugar, olhos esbugalhados, palidez, acho até que já morreu. Essa aqui tá indo direto pras chamas. Não viu que a saída é pro outro lado. E o outro ali é fera. Socorreu, um, deu um tapa  na outra pra acordar e achou a saída. Pulou na água e… que merda!! O assento não flutua...era mentira.

Quando falo sobre ética no trabalho, geralmente a palestra dura menos que as demais. Primeiro porque a maioria não acha que precisa. O sujeito puxa o tapete do colega, faz de tudo pro novato não se dar bem, leva um monte de histórias pro superior e se acha ético. Tudo pelo bem da empresa...que aliás, muitas vezes tem em cargos de chefia alguém que chegou lá sem nenhuma dose de ética. E ainda convida um palestrante porque acha que é disso que a equipe dele está precisando. E de resiliência também. Principalmente a hora que a coisa pega fogo.

O marketing pessoal então,  está com os dias contados. Com as redes sociais todo mundo acha que sabe vender a própria imagem. E ninguém mais tem defeito. O mundo virtual é o melhor lugar pra gente morar. Principalmente se você tiver dois polegares rápidos, meia dúzia de frases feitas e fotos legais de quando você era magro e sabia nadar.

Bem, com licença que tenho um texto de stand up comedy pra mandar para um amigo que tem show amanhã. E não viaja de avião de jeito nenhum...

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O fim do apagão


Tempos atrás o empresariado criou o Impostômetro. Com a ideia de mostrar aos brasileiros o quanto pagam de impostos, engordando o caixa da União, faminto, sedento e insaciável. Convivemos também com outos "ômetros" importantes. O Bafômetro, aliado à Lei Seca, tem mudado a vida de muita gente. O motorista da rodada é cada vez mais solicitado e pessoas tem sido salvas. Mais pelo medo da multa e consequências do que a consciência; mesmo assim, já é um começo.

O Termômetro anda em alta também. Ainda mais quando está em parceria com o Anemômetro e o Higrômetro (favor pesquisar no Google). De uns anos pra cá quase não existe noticiário sem o mapa com indicações de temperatura e clima. Embora em algumas cidades, como Curitiba e São Paulo, frio, calor, chuva, sol, vento e possível tempestade no decorrer do período aconteçam tudo num dia só.

Quer outro? Cito com louvor o Esfigmomanômetro. O velho aparelho para aferir a pressão. Ou medir, como preferem alguns. Sim, hoje ele é até digital e nunca na história deste país  foi tão importante. Vivemos uma era de pressão em meio a um mar de hipertensos pra todo lado. O Brasil já tem quase 25% de sua população com hipertensão e esse número pode aumentar 80% até 2025.
Falei tudo isso porque escrevi esta crônica no mesmo dia em que Dunga anunciou a "nova" seleção brasileira. Mesmo tendo feito uma promessa que depois do 7 a 1 não torço mais, pensei a respeito e decidi iniciar as pesquisas para inventar o Apagômetro. Sim, um aparelho capaz de prever o apagão em quem quer que seja.

Veja o episódio do time do Felipão contra a Alemanha e depois disso quantas vezes o apagão serviu de desculpa para uma falha. Na hora H, do tchan mesmo, já tem gente dizendo que "isso nunca aconteceu comigo, deve ter sido apagão." Prova no Detran, batida de carro, aniversário de casamento, reunião esquecida, pensão atrasada, relatório meia-boca, enfim, dizer que deu um apagão virou a desculpa da vez.
Um equipamento capaz de prever se alguém vai apagar, não literalmente claro, mas apagar como David Luiz e Cia., seria a salvação do futebol, a solução de conflitos matrimonias e até mesmo da relação entre pais e filhos. Alguém ia apagando e, de repente, o aparelhinho com aplicativo no smartphone avisa a tempo e tudo fica claro, sóbrio e ligado. Olha só, que maravilha!!

Por enquanto o jeito é a gente se virar com auto-ajuda, um complexo B aqui ou ômega 3 ali e uma agenda com alarme no celular. Que pode não ajudar na hora do gol, mas quebra um galhinho.

Um dia será anunciado o Apagômetro. Depois de inventado, antes que eu me esqueça, vou patentear e oferecer a criação para a CBF. Também poderá ser útil ao Governo, já que o Impostômetro não o sensibiliza nenhum pouco. Quem sabe nossos governantes se recordem que somos gente. Quase apagando, mas somos...

sábado, 9 de agosto de 2014

Obituário


Ele sabia que já não se fazem mais obituários como antigamente. Nem mesmo os jornais são feitos como antes. Aliás, poderia ser escrito um obituário para quase tudo, já que a maior parte das coisas de que nos
lembramos parece ter se perdido, ficado enterrada em algum lugar. Mesmo assim insistiu com a editora do jornal.

Pediu, quase implorando, que ela publicasse aquela pequena homenagem para alguém que havia morrido. Pra piorar, a morte havia acontecido há 22 anos. Como explicar a publicação, numa página nobre, de uma nota com a data de vencimento expirada há mais de duas décadas?
De tanto insistir ele a convenceu de ler o texto. Caso não gostasse podia simplesmente manter o não inicial. Sua atenção já era um bom caminho andado. E assim estava escrito:

Não acordou naquela manhã pela primeira vez em 51 anos. Seu coraçãodecidiu que era hora de parar de bater por aqui. Homem simples, pouca vezes alguém ouviu de sua boca um palavrão ou uma frase em voz alta. Era manso... Humilde no trato, amável no jeito, simples na conduta, inteligente e bem informado. Trabalhou muito, a vida toda. Da roça pra cidade, onde serviu o exército, foi barbeiro, estudou, virou bancário, contador, corretor, vendedor, viajante.

Até numa chácara chegou a levar a família pra morar. Para os filhos herança não deixou. Não dessas que se conta no banco. Mas o amor pelos livros, o gosto por modas de viola, o encanto pelo canto dos pássaros, pelo sabor do peixe pescado na hora, seu jeito de acreditar sem precisar ter fé e de ter
fé mesmo quando desconfiava.

Não era de ir à igreja; trazia uma reverência quase santa pela honestidade. Não roubava, nem no truco, na canastra, na sinuca, no xadrez. Gostava de um cigarrinho, lá de vez em quando, ou uma cachacinha de alambique. Tinha que ser das boas. Se era pra ter prazer, que ele fosse genuíno.

Adorava um bom Dodge Dart, ou um Charger RT. O Opala também era
paixão. Falava quase emocionado sobre a potência daquele motor, o ruído clicado da suave troca de marchas. Teve também seus fusquinhas.
E por um bom tempo carregou mulher e filhos numa velha e poderosa
bicicleta preta, Gallo. Por falar em filhos, além da esposa deixou os três bem criados, encaminhados, como diria. Não chegou a ver todos os netos. Quer dizer, não com os olhos que um dia contemplaram seu time quebrar um jejum de 23 anos na fila.

Curioso como aquele coração aguentou tanto e ficou fraco por tão pouco. Nunca falou sobre uma possível doença. O Mal de Chagas, provável causa da morte, só surgiu como informação muito tempo depois. Morte que aconteceu num 21 de maio. Para evitar rompantes de socorro ele se foi quando os filhos estavam longe. Não houve despedida. Não do jeito que a imaginamos, ou desejamos. Foi um corte, um desligar sem  chance, uma parada obrigatória.

Seu nome? Deixo guardado no coração de filho. Você pode preencher com o nome de um pai amado. Se também estiver com saudade...


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Reflexões sobre uma página estampada



Em meio as manchetes sobre novas guerras, vi um restinho de esperança. Um homem, sobrevivente do vírus Ebola, ganhou  um abraço contra o estigma de contagioso. Uma mulher que não via seu irmão há mais de 50 anos doou um dos rins e salvou sua vida. E um policial que, por telefone, ajudou alguém a  manter vivo um bebê engasgado.

Claro que entre essas mesmas manchetes havia muito daquilo que  nunca iríamos  precisar saber. Como as dançarinas que um dia já foram do Tchan e pediram a benção do Compadre para voltar aos palcos; pertinho do espaço da página em que Sabrina cancela o anúncio sobre a procura de um triplex em São Paulo.

No mesmo dia um outro avião caiu e a inflação parecia pouco domesticada.  O  Governo   anunciava que ganhou mais de 91 bilhões só em Junho e Dunga estava lá, de volta.  Garantindo que agora será um comandante paz e amor.

As notícias são tantas e trazem tanta coisa que é raro a gente se aprofundar muito nelas. Até porque, como estamos vendo, o que está em destaque hoje será vaga-pouca-ou-quase-nenhuma-lembrança amanhã.

Mesmo assim, nem sei direito a razão, resolvi  olhar  com uma lente mais potente o que os sites e jornais diziam, no dia em que escrevi mais uma crônica. Confesso que as capas me parecerem muito iguais a outras que vi milhares de vezes. Só que hoje, poucos dias depois de perdermos João Ubaldo e Rubem Alves, com Ariano Suassuana lutando para poder contar ao menos mais uma história, enxerguei ainda menos sentido em quase tudo.

Fiquei pensando no jogador brasileiro que se naturalizou ucraniano para atuar naquele país e foi chamado para o exército. Que drama o desse rapaz: descobrir na prática que o futebol nunca foi uma guerra. A guerra além de feia não tem vencedores.


As notícias parecem ter poucos vitoriosos e heróis. Para encontrá-los é preciso garimpar muito. Ou mudar o mundo, nem que seja um pouco de cada vez. Lembrando que esse é o tipo de notícia que não vende. 


terça-feira, 22 de julho de 2014

No mundo da lua



Quando eu era criança, sonhava em ser astronauta. Também, pudera: a corrida espacial estava no auge e até LP com gravação das vozes dos membros da Apollo 11 a gente ouvia naquela época. Se você não sabe o que é um LP e tem vaga lembrança sobre do que se trata a Apollo 11 e corrida espacial, um de nós dois está no texto errado ou fora de órbita. Possivelmente eu, com altas doses de nostalgia e mundo da lua hoje.

Mais tarde descobri que precisaria demais da matemática. E ela sempre foi para mim um universo distante. A fobia que sinto à beira de qualquer sacada possivelmente teria também me reprovado em  algum  teste da Nasa ou na Agência Espacial Russa.

Mesmo assim, o fascínio pelas estrelas, pelo infinito, pela imensidão do que vemos e pouco sabemos ainda permanece. A ficção nos filmes sobre viagens intergalácticas sempre me ajudou a manter o sonho em dia. Jornada nas Estrelas, 2001 - Uma Odisséia no Espaço, Star Treck e tantos outros, exibem mundos irreais para as crianças reais e sonhadoras que existem dentro dos fãs.

Também sou daqueles que acredita na Eternidade. Não a da religião, que limita o Divino a uma prateleira, altar, tribuna ou biblioteca. Mas sim a da mente humana. Criada para sonhar e enxergar depois do sempre. Nela me apego para um dia virar mesmo um astronauta. Um viajante do infinito e além, como diria  o simpático Buzz Lightyear.

Só que não me vejo desenhado, tipo o inesquecível e solitário Astronauta de Maurício de Sousa, ou produzido para uma sessão de cinema. Contemplo mesmo uma possibilidade de que a Universo será uma casa de todos nós. Como escrevi numa postagem que chamo de #frasedomingueira: “Quem nos embarcou na viagem da vida deve estar nos esperando em algum lugar. Não pode, simplesmente, ter no lançado no espaço e no tempo sem retorno.”

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Receita para um agrado; #frasedomingueira de hoje

"Ao pensar em agradar alguém certifique-se de que essa pessoa irá entender. Depois observe se o que faz, escreve, diz ou irá enviar realmente é agradável. Pense ainda umas dez vezes... Agradar quem não merece ou quer, é um tipo de atitude inflamável; pode queimar!"