sábado, 9 de agosto de 2014
Obituário
Ele sabia que já não se fazem mais obituários como antigamente. Nem mesmo os jornais são feitos como antes. Aliás, poderia ser escrito um obituário para quase tudo, já que a maior parte das coisas de que nos
lembramos parece ter se perdido, ficado enterrada em algum lugar. Mesmo assim insistiu com a editora do jornal.
Pediu, quase implorando, que ela publicasse aquela pequena homenagem para alguém que havia morrido. Pra piorar, a morte havia acontecido há 22 anos. Como explicar a publicação, numa página nobre, de uma nota com a data de vencimento expirada há mais de duas décadas?
De tanto insistir ele a convenceu de ler o texto. Caso não gostasse podia simplesmente manter o não inicial. Sua atenção já era um bom caminho andado. E assim estava escrito:
Não acordou naquela manhã pela primeira vez em 51 anos. Seu coraçãodecidiu que era hora de parar de bater por aqui. Homem simples, pouca vezes alguém ouviu de sua boca um palavrão ou uma frase em voz alta. Era manso... Humilde no trato, amável no jeito, simples na conduta, inteligente e bem informado. Trabalhou muito, a vida toda. Da roça pra cidade, onde serviu o exército, foi barbeiro, estudou, virou bancário, contador, corretor, vendedor, viajante.
Até numa chácara chegou a levar a família pra morar. Para os filhos herança não deixou. Não dessas que se conta no banco. Mas o amor pelos livros, o gosto por modas de viola, o encanto pelo canto dos pássaros, pelo sabor do peixe pescado na hora, seu jeito de acreditar sem precisar ter fé e de ter
fé mesmo quando desconfiava.
Não era de ir à igreja; trazia uma reverência quase santa pela honestidade. Não roubava, nem no truco, na canastra, na sinuca, no xadrez. Gostava de um cigarrinho, lá de vez em quando, ou uma cachacinha de alambique. Tinha que ser das boas. Se era pra ter prazer, que ele fosse genuíno.
Adorava um bom Dodge Dart, ou um Charger RT. O Opala também era
paixão. Falava quase emocionado sobre a potência daquele motor, o ruído clicado da suave troca de marchas. Teve também seus fusquinhas.
E por um bom tempo carregou mulher e filhos numa velha e poderosa
bicicleta preta, Gallo. Por falar em filhos, além da esposa deixou os três bem criados, encaminhados, como diria. Não chegou a ver todos os netos. Quer dizer, não com os olhos que um dia contemplaram seu time quebrar um jejum de 23 anos na fila.
Curioso como aquele coração aguentou tanto e ficou fraco por tão pouco. Nunca falou sobre uma possível doença. O Mal de Chagas, provável causa da morte, só surgiu como informação muito tempo depois. Morte que aconteceu num 21 de maio. Para evitar rompantes de socorro ele se foi quando os filhos estavam longe. Não houve despedida. Não do jeito que a imaginamos, ou desejamos. Foi um corte, um desligar sem chance, uma parada obrigatória.
Seu nome? Deixo guardado no coração de filho. Você pode preencher com o nome de um pai amado. Se também estiver com saudade...
quarta-feira, 23 de julho de 2014
Reflexões sobre uma página estampada
Em meio as manchetes sobre novas guerras, vi um restinho de esperança. Um homem, sobrevivente do vírus Ebola, ganhou um abraço contra o estigma de contagioso. Uma mulher que não via seu irmão há mais de 50 anos doou um dos rins e salvou sua vida. E um policial que, por telefone, ajudou alguém a manter vivo um bebê engasgado.
Claro que entre essas mesmas manchetes havia muito daquilo que nunca iríamos precisar saber. Como as dançarinas que um dia já foram do Tchan e pediram a benção do Compadre para voltar aos palcos; pertinho do espaço da página em que Sabrina cancela o anúncio sobre a procura de um triplex em São Paulo.
No mesmo dia um outro avião caiu e a inflação parecia pouco domesticada. O Governo anunciava que ganhou mais de 91 bilhões só em Junho e Dunga estava lá, de volta. Garantindo que agora será um comandante paz e amor.
As notícias são tantas e trazem tanta coisa que é raro a gente se aprofundar muito nelas. Até porque, como estamos vendo, o que está em destaque hoje será vaga-pouca-ou-quase-nenhuma-lembrança amanhã.
Mesmo assim, nem sei direito a razão, resolvi olhar com uma lente mais potente o que os sites e jornais diziam, no dia em que escrevi mais uma crônica. Confesso que as capas me parecerem muito iguais a outras que vi milhares de vezes. Só que hoje, poucos dias depois de perdermos João Ubaldo e Rubem Alves, com Ariano Suassuana lutando para poder contar ao menos mais uma história, enxerguei ainda menos sentido em quase tudo.
Fiquei pensando no jogador brasileiro que se naturalizou ucraniano para atuar naquele país e foi chamado para o exército. Que drama o desse rapaz: descobrir na prática que o futebol nunca foi uma guerra. A guerra além de feia não tem vencedores.
As notícias parecem ter poucos vitoriosos e heróis. Para encontrá-los é preciso garimpar muito. Ou mudar o mundo, nem que seja um pouco de cada vez. Lembrando que esse é o tipo de notícia que não vende.
terça-feira, 22 de julho de 2014
No mundo da lua
Quando eu era criança, sonhava em ser astronauta. Também, pudera: a corrida espacial estava no auge e até LP com gravação das vozes dos membros da Apollo 11 a gente ouvia naquela época. Se você não sabe o que é um LP e tem vaga lembrança sobre do que se trata a Apollo 11 e corrida espacial, um de nós dois está no texto errado ou fora de órbita. Possivelmente eu, com altas doses de nostalgia e mundo da lua hoje.
Mais tarde descobri que precisaria demais da matemática. E ela sempre foi para mim um universo distante. A fobia que sinto à beira de qualquer sacada possivelmente teria também me reprovado em algum teste da Nasa ou na Agência Espacial Russa.
Mesmo assim, o fascínio pelas estrelas, pelo infinito, pela imensidão do que vemos e pouco sabemos ainda permanece. A ficção nos filmes sobre viagens intergalácticas sempre me ajudou a manter o sonho em dia. Jornada nas Estrelas, 2001 - Uma Odisséia no Espaço, Star Treck e tantos outros, exibem mundos irreais para as crianças reais e sonhadoras que existem dentro dos fãs.
Também sou daqueles que acredita na Eternidade. Não a da religião, que limita o Divino a uma prateleira, altar, tribuna ou biblioteca. Mas sim a da mente humana. Criada para sonhar e enxergar depois do sempre. Nela me apego para um dia virar mesmo um astronauta. Um viajante do infinito e além, como diria o simpático Buzz Lightyear.
Só que não me vejo desenhado, tipo o inesquecível e solitário Astronauta de Maurício de Sousa, ou produzido para uma sessão de cinema. Contemplo mesmo uma possibilidade de que a Universo será uma casa de todos nós. Como escrevi numa postagem que chamo de #frasedomingueira: “Quem nos embarcou na viagem da vida deve estar nos esperando em algum lugar. Não pode, simplesmente, ter no lançado no espaço e no tempo sem retorno.”
sexta-feira, 11 de julho de 2014
Receita para um agrado; #frasedomingueira de hoje
"Ao pensar em agradar alguém certifique-se de que essa pessoa irá entender. Depois observe se o que faz, escreve, diz ou irá enviar realmente é agradável. Pense ainda umas dez vezes... Agradar quem não merece ou quer, é um tipo de atitude inflamável; pode queimar!"
terça-feira, 17 de junho de 2014
Larissa furou a fila
Pouca coisa ou quase nada está acontecendo. Ao menos é
essa a impressão que passam alguns dos principais sites do país. A Copa e seus
entornos tomaram conta da mídia e só o que acontece por lá parece ser o fato.
Nada contra o mundo da bola, pelo contrário; gosto de futebol desde que meus
tios, pai, padrinho e amigos me deram 11 bolas no aniversário de primeiro
aninho. Todos acreditando que mais um craque havia nascido...triste ilusão.
O problema não é a bola, nem a competição, que aliás
apresenta um nível elevado tecnicamente e boas partidas quando o assunto é
esquema tático e a inteligência do jogo. A questão que incomoda é a maneira com
que o usuário-leitor-internauta-consumidor é tratado.
A manchete que mostra a paraguaia Larissa Riquelme se
vangloriando de ter furado a fila com a ajuda de "oficiais" no
aeroporto lotado é emblemática. A moça, que um dia alguém decidiu escolher como
a musa da Copa de 2010, conseguiu mais uma vez virar notícia. Agora, mesmo
sendo made in Paraguay, mostrou ginga num autêntico jeitinho brasileiro.
Driblou a segurança enquanto dezenas de "não-musos e musas" tiveram
que esperar a burocracia nas emperradas filas. Algo comum nos péssimos
aeroportos brasileiros.
Pra piorar, além de não acrescentar nada além da
indignação e do vazio que uma notícia dessas representa, os destaques do
Mundial 2014 são, em sua maioria, dignos
de Caras ou tapas na cara.
Veja o caso do mascote Fuleco, por exemplo: não
apareceu nos estádios, ninguém viu na abertura do evento e possivelmente será o
grande ausente até o final. Tudo porque a Fifa não teria cumprido com sua parte
num acordo com entidades de defesa do tatu-bola, animal ameaçado de extinção e
que seria alvo das ações numa campanha com apoio financeiro da promotora da
Copa. O valor oferecido para ajudar na defesa do bichinho, não passaria de 300
mil dólares, parcelados em 10 anos.
Ong's e grupos de defesa não aceitaram por acharem ser muito pouco e o
Fuleco ficou encalhado. Já o animal, sinceramente, não sei se seria mesmo
ajudado.
Como ainda tem muita bola pra rolar e pouco tatú na
roça, vamos assistir aos jogos. No meu caso, sem a mesma paixão que um dia me
levava para a frente da TV. Talvez seja algo só comigo, um cara que anda cada
dia mais impaciente com o tamanho das filas e com nenhum silicone para furar a
defesa adversária...
terça-feira, 29 de abril de 2014
Cinema para ouvir
A palavra gênio anda meio surrada. Gente com pouco talento no mundo das artes, do esporte, da ciência, tem sido elevada ao panteão onde vivem os verdadeiros gênios sem merecer estar ali. Não por falta de esforço, mas por não haver mesmo como comparar. Gênio é gênio e ponto. Poucos chegaram lá e um número limitado alcançará essa glória, mesmo que alguém queira entrar sem a senha.
Não corro o risco de ser condenado pela homenagem que faço nesta crônica. O artista que reverencio aqui já foi chamado de gênio por outros gênios, e aplaudido pelo mundo em salas de cinema de Los Angeles a Bangladesh.
Nascido em Frankfurt, Hans Zimmer começou a carreira tocando teclados e sintetizadores com amigos em bandas alemãs. Nos anos 80 mudou o tom e entrou de vez no mundo do cinema. Em 1988, enquanto Dustin Hoffman provava mais uma vez com seu Rain Man que é um ator espetacular, acordes compostos por Zimmer embalavam as cenas daquele filmaço. De lá pra cá o músico acertou em cheio em quase tudo o que fez. Seu toque de Midas musical é algo digno de Nino Rota, Max Steiner, John Barry, Ennio Morricone, Maurice Jarre e outros poucos.
Dia desses falei para minhas filhas, ao sairmos do cinema, que teria ido ao filme só para ouvir a trilha de Hans Zimmer, mesmo que a película não fosse lá uma Brastemp. Tenho por ele um ouvido apaixonado. Especialmente depois do que fez em O Gladiador, Batman - O Cavaleiro das Trevas, A Origem, Thelma e Louise, Piratas do Caribe, O Advogado do Diabo e mais recentemente nos filmes 12 Anos de Escravidão e Divergente. Como podemos ver e ouvir, a lista é longa e cheia de músicas inesquecíveis.
Posso garantir que com a trilha de animações como O Rei Leão, O Príncipe do Egito e Madagascar eu também me remexo muito.
Com as cenas que emoldura em sua belíssima arte de compor e produzir, Zimmer tornou-se excelente e em alguns aspectos, singular. Sou fã sem carteirinha, já que não pago meia há muito tempo. Mas não tem problema, quando a trilha é dele posso até pagar o dobro, sair e pagar de novo. É gênio!
quinta-feira, 6 de março de 2014
Cinema em casa
Durante um passeio com minhas duas filhas surgiu o cinema, como tema da conversa. Falamos sobre “12 Anos de Escravidão”. Elas queriam saber o que eu e a “mamis” tínhamos achado do filme. Respondi que além de termos gostado muito da saga de um homem livre, sequestrado e escravizado em fazendas no sul dos EUA, nos chamou a atenção o fato de que após 161 anos o jornal "New York Times" tenha corrigido um artigo sobre a história que originou o ganhador do Oscar.
Publicado em 20 de janeiro de 1853, o texto traz o nome de Solomon Northup, protagonista do drama, grafado incorretamente. O sobrenome aparece como "Northrop" e como "Northrup". O erro veio à tona após a escritora Rebecca Skloot apontar o problema no Twitter.
Curiosidades como a produção ter sido salva pelos cofres de Brad Pitt, o diretor e ator principal serem ingleses, o roteirista ter trabalhado de graça até aparecer alguém que bancasse o filme, o exuberante desempenho do alemão Michael Fassbender também pontuaram nosso papo.
E é gostoso compartilhar isso. Poder trocar ideias sobre cinema, literatura, arte ou qualquer coisa construtiva com duas jovens de 17 e 14 anos é um privilégio. Ainda mais se elas moram na mesma casa que você.
Em tempos de vacas magras nos relacionamentos, imersão nas redes e o novo mundo das mídias sociais e sua revolução silenciosa, dedinhos de prosa em família tem um quê de tábua de salvação. Me peguei pensando nisso e fiquei feliz em saber que desfrutamos de prazeres mútuos, mesmo pertencendo a universos tão distintos. O choque de gerações não rompe laços de amor e carinho.
Claro que eu e minha esposa esbarramos na imensa dificuldade que é conviver e entender seres tão diferentes. Filhos evoluíram tanto que às vezes temos a impressão de que foram abduzidos e alienígenas os capacitaram com poderes além da nossa conta. E isso acontece com todo mundo. Só muda o endereço.
Mesmo assim me flagrei em paz, lembrando da conversa sobre a luta do escravo que queria voltar pra sua casa. E é isso o que muita gente experimenta hoje: um enorme desejo de voltar pra casa. Independetemente do tipo de escravidão que enfrenta.
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