quarta-feira, 23 de julho de 2014

Reflexões sobre uma página estampada



Em meio as manchetes sobre novas guerras, vi um restinho de esperança. Um homem, sobrevivente do vírus Ebola, ganhou  um abraço contra o estigma de contagioso. Uma mulher que não via seu irmão há mais de 50 anos doou um dos rins e salvou sua vida. E um policial que, por telefone, ajudou alguém a  manter vivo um bebê engasgado.

Claro que entre essas mesmas manchetes havia muito daquilo que  nunca iríamos  precisar saber. Como as dançarinas que um dia já foram do Tchan e pediram a benção do Compadre para voltar aos palcos; pertinho do espaço da página em que Sabrina cancela o anúncio sobre a procura de um triplex em São Paulo.

No mesmo dia um outro avião caiu e a inflação parecia pouco domesticada.  O  Governo   anunciava que ganhou mais de 91 bilhões só em Junho e Dunga estava lá, de volta.  Garantindo que agora será um comandante paz e amor.

As notícias são tantas e trazem tanta coisa que é raro a gente se aprofundar muito nelas. Até porque, como estamos vendo, o que está em destaque hoje será vaga-pouca-ou-quase-nenhuma-lembrança amanhã.

Mesmo assim, nem sei direito a razão, resolvi  olhar  com uma lente mais potente o que os sites e jornais diziam, no dia em que escrevi mais uma crônica. Confesso que as capas me parecerem muito iguais a outras que vi milhares de vezes. Só que hoje, poucos dias depois de perdermos João Ubaldo e Rubem Alves, com Ariano Suassuana lutando para poder contar ao menos mais uma história, enxerguei ainda menos sentido em quase tudo.

Fiquei pensando no jogador brasileiro que se naturalizou ucraniano para atuar naquele país e foi chamado para o exército. Que drama o desse rapaz: descobrir na prática que o futebol nunca foi uma guerra. A guerra além de feia não tem vencedores.


As notícias parecem ter poucos vitoriosos e heróis. Para encontrá-los é preciso garimpar muito. Ou mudar o mundo, nem que seja um pouco de cada vez. Lembrando que esse é o tipo de notícia que não vende. 


terça-feira, 22 de julho de 2014

No mundo da lua



Quando eu era criança, sonhava em ser astronauta. Também, pudera: a corrida espacial estava no auge e até LP com gravação das vozes dos membros da Apollo 11 a gente ouvia naquela época. Se você não sabe o que é um LP e tem vaga lembrança sobre do que se trata a Apollo 11 e corrida espacial, um de nós dois está no texto errado ou fora de órbita. Possivelmente eu, com altas doses de nostalgia e mundo da lua hoje.

Mais tarde descobri que precisaria demais da matemática. E ela sempre foi para mim um universo distante. A fobia que sinto à beira de qualquer sacada possivelmente teria também me reprovado em  algum  teste da Nasa ou na Agência Espacial Russa.

Mesmo assim, o fascínio pelas estrelas, pelo infinito, pela imensidão do que vemos e pouco sabemos ainda permanece. A ficção nos filmes sobre viagens intergalácticas sempre me ajudou a manter o sonho em dia. Jornada nas Estrelas, 2001 - Uma Odisséia no Espaço, Star Treck e tantos outros, exibem mundos irreais para as crianças reais e sonhadoras que existem dentro dos fãs.

Também sou daqueles que acredita na Eternidade. Não a da religião, que limita o Divino a uma prateleira, altar, tribuna ou biblioteca. Mas sim a da mente humana. Criada para sonhar e enxergar depois do sempre. Nela me apego para um dia virar mesmo um astronauta. Um viajante do infinito e além, como diria  o simpático Buzz Lightyear.

Só que não me vejo desenhado, tipo o inesquecível e solitário Astronauta de Maurício de Sousa, ou produzido para uma sessão de cinema. Contemplo mesmo uma possibilidade de que a Universo será uma casa de todos nós. Como escrevi numa postagem que chamo de #frasedomingueira: “Quem nos embarcou na viagem da vida deve estar nos esperando em algum lugar. Não pode, simplesmente, ter no lançado no espaço e no tempo sem retorno.”

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Receita para um agrado; #frasedomingueira de hoje

"Ao pensar em agradar alguém certifique-se de que essa pessoa irá entender. Depois observe se o que faz, escreve, diz ou irá enviar realmente é agradável. Pense ainda umas dez vezes... Agradar quem não merece ou quer, é um tipo de atitude inflamável; pode queimar!"



terça-feira, 17 de junho de 2014

Larissa furou a fila



Pouca coisa ou quase nada está acontecendo. Ao menos é essa a impressão que passam alguns dos principais sites do país. A Copa e seus entornos tomaram conta da mídia e só o que acontece por lá parece ser o fato. Nada contra o mundo da bola, pelo contrário; gosto de futebol desde que meus tios, pai, padrinho e amigos me deram 11 bolas no aniversário de primeiro aninho. Todos acreditando que mais um craque havia nascido...triste ilusão.

O problema não é a bola, nem a competição, que aliás apresenta um nível elevado tecnicamente e boas partidas quando o assunto é esquema tático e a inteligência do jogo. A questão que incomoda é a maneira com que o usuário-leitor-internauta-consumidor é tratado.

A manchete que mostra a paraguaia Larissa Riquelme se vangloriando de ter furado a fila com a ajuda de "oficiais" no aeroporto lotado é emblemática. A moça, que um dia alguém decidiu escolher como a musa da Copa de 2010, conseguiu mais uma vez virar notícia. Agora, mesmo sendo made in Paraguay, mostrou ginga num autêntico jeitinho brasileiro. Driblou a segurança enquanto dezenas de "não-musos e musas" tiveram que esperar a burocracia nas emperradas filas. Algo comum nos péssimos aeroportos brasileiros.

Pra piorar, além de não acrescentar nada além da indignação e do vazio que uma notícia dessas representa, os destaques do Mundial 2014 são, em sua maioria,  dignos de Caras ou tapas na cara.

Veja o caso do mascote Fuleco, por exemplo: não apareceu nos estádios, ninguém viu na abertura do evento e possivelmente será o grande ausente até o final. Tudo porque a Fifa não teria cumprido com sua parte num acordo com entidades de defesa do tatu-bola, animal ameaçado de extinção e que seria alvo das ações numa campanha com apoio financeiro da promotora da Copa. O valor oferecido para ajudar na defesa do bichinho, não passaria de 300 mil dólares, parcelados em 10 anos.  Ong's e grupos de defesa não aceitaram por acharem ser muito pouco e o Fuleco ficou encalhado. Já o animal, sinceramente, não sei se seria mesmo ajudado.


Como ainda tem muita bola pra rolar e pouco tatú na roça, vamos assistir aos jogos. No meu caso, sem a mesma paixão que um dia me levava para a frente da TV. Talvez seja algo só comigo, um cara que anda cada dia mais impaciente com o tamanho das filas e com nenhum silicone para furar a defesa adversária... 

terça-feira, 29 de abril de 2014

Cinema para ouvir


A palavra gênio anda meio surrada. Gente com pouco talento no mundo das artes, do esporte, da ciência, tem sido elevada ao panteão onde vivem os verdadeiros gênios sem merecer estar ali. Não por falta de esforço, mas por não haver mesmo como comparar. Gênio é gênio e ponto. Poucos chegaram lá e um número  limitado   alcançará essa glória, mesmo que alguém queira entrar  sem a senha.

Não corro o risco de ser condenado pela homenagem que faço nesta crônica. O artista que reverencio aqui já foi chamado de gênio por outros gênios, e aplaudido pelo mundo em salas de cinema de Los Angeles a Bangladesh.

Nascido em Frankfurt, Hans Zimmer começou a carreira tocando teclados e sintetizadores com amigos em bandas alemãs. Nos anos 80 mudou o tom e entrou de vez no mundo do cinema. Em 1988, enquanto Dustin Hoffman provava mais uma vez com seu Rain Man que é um ator espetacular, acordes compostos por Zimmer embalavam as cenas daquele filmaço. De lá pra cá o músico acertou em cheio em quase tudo o que fez. Seu toque de Midas musical é algo digno de Nino Rota, Max Steiner, John Barry, Ennio Morricone, Maurice Jarre e  outros  poucos.

Dia desses  falei  para minhas filhas, ao sairmos do cinema, que teria ido ao filme só para ouvir a trilha de Hans Zimmer, mesmo que a película não fosse lá uma Brastemp. Tenho por ele um ouvido apaixonado. Especialmente depois do que fez em O Gladiador,   Batman - O Cavaleiro das Trevas, A Origem, Thelma e Louise, Piratas do Caribe, O Advogado do Diabo e mais recentemente  nos filmes 12 Anos de Escravidão e Divergente. Como podemos ver e ouvir, a lista é longa e cheia de músicas inesquecíveis.

Posso garantir que com a trilha de animações como O Rei Leão, O Príncipe do Egito e Madagascar eu também me remexo muito.

Com as cenas que emoldura em sua belíssima arte de compor e produzir, Zimmer tornou-se excelente e em alguns aspectos, singular. Sou  fã sem carteirinha, já que não pago meia há muito tempo. Mas não tem problema, quando a trilha é dele posso até pagar o dobro, sair e pagar de novo. É gênio!

quinta-feira, 6 de março de 2014

Cinema em casa

Durante um passeio com minhas duas filhas surgiu o cinema, como tema da conversa.  Falamos   sobre  “12 Anos de Escravidão”. Elas queriam saber o que eu  e a “mamis” tínhamos achado do filme. Respondi que além de termos gostado muito da saga de um homem livre, sequestrado e escravizado em fazendas no sul dos EUA, nos chamou a  atenção  o  fato de que  após 161 anos o jornal "New York Times" tenha corrigido um artigo  sobre a  história que originou o ganhador do Oscar.

Publicado em 20 de janeiro de 1853, o texto traz o nome de Solomon Northup, protagonista do drama, grafado incorretamente. O sobrenome aparece como "Northrop" e como "Northrup". O erro veio à tona após a escritora Rebecca Skloot apontar o problema no Twitter.
Curiosidades como a produção ter sido salva pelos cofres de Brad Pitt, o diretor e ator principal serem ingleses, o roteirista ter trabalhado de graça até aparecer alguém que bancasse o filme, o exuberante desempenho do alemão Michael Fassbender também pontuaram nosso papo.
E é gostoso compartilhar isso.  Poder  trocar  ideias sobre cinema, literatura, arte ou qualquer coisa construtiva com duas jovens de 17 e 14 anos é um privilégio.  Ainda mais se elas moram na mesma casa que você.
Em tempos de vacas magras nos relacionamentos, imersão nas redes e o novo mundo das mídias sociais e sua revolução silenciosa, dedinhos de prosa  em família tem um quê de tábua de salvação. Me peguei pensando nisso e fiquei feliz em saber que desfrutamos de prazeres mútuos, mesmo pertencendo a universos tão distintos. O choque de gerações não rompe laços de amor e carinho.
Claro que eu e minha esposa esbarramos na imensa dificuldade que é conviver e entender seres tão diferentes. Filhos evoluíram tanto que às vezes temos a impressão de que foram abduzidos  e  alienígenas os capacitaram com poderes além da nossa conta. E isso acontece com todo mundo. Só muda o endereço.

Mesmo assim me flagrei em paz, lembrando da conversa sobre a luta do escravo que queria voltar pra sua casa. E é isso o que muita gente experimenta hoje: um enorme desejo de voltar pra casa.  Independetemente do tipo de escravidão que enfrenta.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Filho é quem cria


Nasci no interior de São Paulo, morei no Paraná, de lá  fui para Rondônia de onde me mudei há pouco mais de um ano para voltar a ser paulista. Das saudades que deixei, a maior delas sempre volta ao que escrevo: o amor por meu falecido pai, a quem me refiro sempre como o homem da minha vida. Tudo o que me lembra seu Benedicto mexe com algo dentro de  mim  que não tem botão de desliga.

O que eu não esperava  era  que um mês de molho em casa, por conta de uma cirurgia, com os cuidados mais que especiais que recebi da esposa e duas filhas, pudesse despertar esse algo dentro de mim de forma tão viva.

É muito duro e complicado você não poder se movimentar muito. Depender dos outros para quase tudo e ter que pedir, incomodar, dar trabalho e preocupação. O afastamento é muito maior do que um período de licença médica para reabilitação.
Também por isso, de volta ao trabalho hoje, parei pra pensar no quanto minhas três mulheres se dedicaram nos dias de repouso forçado; e ainda se dedicam:  ajudando  na minha  reentrada ao mundo do trabalho e do convívio fora do quarto e sala.

Ao pensar nas filhotas pensei em mim como filho. Enviei uma carta de cobrança ao passado. Nela eu pergunto se fui, em algum momento, tão bom com meu pai quanto elas estão sendo comigo. Se amei de forma tão intensa como sou amado. Se ofereci tantos sorrisos e frases… e café pronto, com uma boa fatia de bolo de fubá com margarina.

No meu aniversário, dia desses, vi que estou chegando perto da idade que ele tinha quando morreu. Jovem demais para ir tão longe sozinho. Não como medo de que aconteça o mesmo comigo, nada disso. Pensei nisso porque ainda estava lá no passado, cobrando o filho que um dia eu não sei se fui.


Não consegui desligar ainda. Também não é pra menos. Comecei agora a pensar em quem fez o bolo. E no marido que devo ser.